The Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra
civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas

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Title: Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte

Author: Miguel J. T. Mascarenhas

Release Date: May 3, 2008 [EBook #25313]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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UM CONTO PORTUGUEZ




UM CONTO PORTUGUEZ

EPISODIO DA GUERRA CIVIL

A MARIA DA FONTE

POR

MIGUEL J. T. MASCARENHAS

PORTO

Typographia Lusitana

84--Rua das Flores--84

1873.




DEDICATORIA

A MEU FILHO

GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS


Dedico-te o meu unico livro.

Dos variados escriptos meus,  este s que aprecio, porque empreguei n'elle
todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta
annos repletos de provaes.

Principiado na convalescena de perigosa enfermidade,  cerca de quatro
annos, s hoje foi concluido.  certo que precisei estudar, e ler muitos
livros portuguezes de lei; mas a demora na concluso do Conto Portuguez,
deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos
physicos, que me no  consentem atturados trabalhos de nenhum genero.

Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e
minha insinuao, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos
eterno reconhecimento: s como um ponto de reunio dos nossos bons amigos
que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.

Guimares, 12 de Agosto de 1873.

                                                        Teu pae muito amigo

                                                  Miguel J. T. Mascarenhas.




PROLOGO


No ha foras humanas que nos destruam as tendencias.

Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por
escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa
de no compr mais versos.

Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attraco para as
letras.

No frequentei esclas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia,
como chegar  realisao dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vr
em letra redonda a minha letra de mo?!

Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita
leitura,  de boa ou m digesto, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita
audacia, que  o fructo da ignorancia.

Tenho soffrido decepes amargas, por muitas das minhas impensadas
obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...

Remirei os meus peccados, com a publicao d'este livro?...

Sugeitei a primeira parte do Conto portuguez  censura d'um dos mais
eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e
imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que
dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o
bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.

Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu Conto sem continuar o
prvio exame da pessoa competente a que me refiro. A raso d'este proceder,
que parece atrevido, est no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na
minha indole de hoje: tive j tanto de audacioso, quanto agora tenho de
poltro. O estudo, os annos, e tambem as doenas, concorreram para a
mudana: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. No
curo do concerto, para no desabar  o edificio. Se continuasse a apresentar
o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como 
de crer, lhe notasse os defeitos,--morria o Conto com toda a certeza:
morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas
as palavras.

Seria melhor?...

So exactissimas as citaes que fao tanto na parte historica como na
romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que  aco do Conto, sem
ter alluses determinadas, , com tudo, verdadeira: so muitos factos, meus
conhecidos, desviados das pocas e logares em que se deram, atados e
compostos com a arte de que posso dispr, e postos a cargo de imaginarios
personagens.

Resta-me dizer que, na pontuao, segui o systema de regular a escriptura
pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e
da grammatica geral, no esto ainda assentadas, e j  tarde para o serem.
Assim, entendi que no errava, seguindo opinies esclarecidissimas, que
podem ser capitaneadas pela mui douta opinio do nosso immortal padre
Vieira, manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:

Arranca o estatuario uma pedra d'essas  montanhas, tosca, bruta, dura,
informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o mao e o cinzel na
mo, e comea a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois,
feio por feio, at a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a
testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe
as faces; torneia-lhe o pescoo; estende-lhe os braos; espalma-lhe as
mos; divide-lhe os dedos; lana-lhe os vestidos: aqui desprega; alli
arruga; acol recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que
se pde pr no altar.

Guimares, 12 de Agosto de 1873.

                                                  Miguel J. T. Mascarenhas.




PRIMEIRA PARTE

HONRA


  No que o mundo chama _honra_ ha muitas vezes mais vaidade que virtude.

                                                   (DR. CORRA DE LACERDA).




UM CONTO PORTUGUEZ



I

TREZ DONZELLAS

      ....................
      Tres, sim. No cuides
      Que te desgraas:
        Vs?
      Tres so as Graas,
      Tres, as Virtudes,
        Tres.

              _Joo de Deus_--FLOR DO CAMPO.


Ao cahir da tarde de um dia que fra borrascso, no mez de Maria de 1846,
avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores
floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa,
das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O
donaire de uma d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem
posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada
posio social a que pertencia. A natureza  que fra egualmente prodiga
para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam  essas feies
caracteristicas das nossas mimosas portuguezas--e no  cego patriotismo
esta assero--que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.

Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho:
por menos euphonico que parea este ultimo appellido--seja dito aqui
ligeiramente-- muito nobre e muito peninsular.[1]

D. Maria achava-se no gso de todas as caricias da familia, porque vira
fallecer, um aps outro, cinco irmos vares, ficando a ser, por tal falta,
o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem
usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em
redor de sua habitao, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; ps
pequenissimos; mos a que todos os poetas--e os democraticos mais que
todos--chamam aristocraticas, por no encontrarem palavra mais
significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto
aquilino; olhos pretos, rasgados em frma de amndoa, e penetrantes; bocca,
ainda que no mui breve, attrahente e engraada, pelos alvissimos dentes
que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam
em natural e opulenta cora; piso de alvloa sobre glo, e... mais de
trezentos mil cruzados em dote.

Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as
magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, s por
ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.

A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que 
fora de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus
nobilissimos antepassados na applicao ao estudo, e nos apreciaveis
resultados que de tal ia colhendo. Era j mais de mediocremente instruida,
e muito alm do geral das senhoras portuguezas.

Sobre a instruco, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao
espirito repentista do sexo, dava  briosa fidalga proveitosas vantagens.

Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasio
teremos de pr em relvo seus dotes e qualidades.

As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima,
estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito
parecidas, apesar de no conhecerem parentesco algum entre si, e to
similhantes uma  outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os
nomes.

Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas;
frmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de
fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes no conseguiam
abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.

Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenas  religiosas, que tocavam
na beatice. Ao avsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa
de saber; crente, sim, na religio de seus paes, mas desprendida de certas
apparencias, a que ella sabia chamar _phantasias sagradas_.

Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim
dizer, coadas pelo receio de no acertar. Rosa, respondia a tudo com a
rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam 
boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lr e escrever, quasi
correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e
voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade s demais donzellas
da mesma classe.

A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas
dezoito primaveras.

Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo,
o pueril capricho de que no era mais velha uma do que a outra.

Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fra desde
rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e
a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras,
como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria
d'aquelles que bem os serviam. A me, alquebrada pelos trabalhos mais que
pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera
embebidos os olhos, e a alma presa.

Rumorejava o povo contra o extremo maternal da me de Rosa, conhecida por
Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma vez
fra origem de mgoas para o marido, Jos do Adro, o fallecido pae de Roza.

Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco
certeiro nos juizos que frma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os
rumores de que se faz echo.

Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e
de quatro irmos mais velhos, que eram completos homens do campo.
Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi
desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua
laboriosa e rude familia.

No deve ser estranhada a confiana que D. Maria da Gloria dava, como
iremos conhecendo, s filhas de seus caseiros. E de certo o no estranham,
aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato
da verdadeira nobreza de Portugal, mrmente com as pessoas de condio
humilde.

Corre um tempo pouco favoravel  nobreza de sangue, no dizer dos que s
d'esta herana desdenham.

Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma
gerao briosa, e heroica!

Porqu?

 facil a resposta, a quem a quizer dar em boa f: ralha-se do que se no
pde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distinces, tudo: s no  possivel
mudar-se o bero. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasio do
seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...

Sejamos justos: haja considerao para tudo que o merece, que o bello  de
todas as classes sociaes.

Descender de boa extirpe,  indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a
muito.

Os que hoje adquirem nobreza,--e  comezinho o accesso,--se podessem
testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes
aos heroicos avs, no ficariam repletos de intima alegria?

Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas ras, em que
decerto j tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer,
com um dos nossos doutos portuguezes, que no ha cousa mais estimavel e
bella, que a nobreza do sangue, junta  nobreza do corao:  uma saphira
engastada em oiro purissimo.

O colloquio das tres donzellas, fra assim:

--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel
Anna, o que tens tu?

--Pensar talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela
interrogada, a falladeira Rosa.

--Ora vamos, travessura da vida!... J te prohibi que me chamasses fidalga,
como tambem te fiz vr, o respeito que se deve a tudo que prende com a
religio que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de
mestra, e que posso chamar  palmatoria a discipula rebelde...

--Diz bem fidal... snr.^a D. Maria; e aqui tem a mo, sem fazer momices...
mas eu s digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas,
que parece mesmo a figura da tristeza, quando no ha motivos para lagrimas.

--Tu pdes l saber, o que vae no corao da nossa amiga, doudinha?

--Sabe de certo, minha senhora, porque entre ns tres no ha
segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.

--No ha, no... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e
desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem
revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a
desventura de deixar uma noite cahir a canda, e emborcar o azeite, para
logo prev graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um
vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e
diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu
casebre, e v que eu, por melhor disposio ou limpeza, deixei ficar a
minha cama com os ps para o lado da porta, faz tal exclamao, que devras
me assusta; e...

--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso.
No ser possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas
graas, a nossa commum amiga?

--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vr se perco
algum do meu natural acanhamento. Conheo-me defeituosa, e sinto no ter a
necessaria fora para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de
Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.

--Nem tanto, pequena, que me arrependo j... Fazeres de mim, por obra do
Eterno, um propheta de saias,  mais pesado do que ouvir-te quantos
preconceitos aprendeste de teus crdulos parentes.

--Se tu confessas que foram aprendidos, como  posso eu ter culpa das culpas
alheias?... No  assim, minha senhora?

--Dizes pouco, mas sempre bem.  o resultado de quem pensa o que diz. O
favor que me fazes de _tua senhora_,  que eu no queria receber. Chamai-me
s D. Maria, j que no quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e
proprio das nossas idades, como eu appetecia.

--Era o que faltava! As rainhas bem amigas so das damas do pao, e mais
estas ajoelham-se para beijarem a mo de sua real ama...

--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a
muito se fres bem fadada por Deus.

--Vs, Rosinha, _minha vassalla_, que o mal da inveja tambem toca nas almas
como a da nossa Annitas!?

--Aquillo, senhora, no  inveja,  mostrar que _pensa o que diz_... mas 
muito de crr que nem sempre _diga o que pensa_...

--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, no ha partido...
Olhai!... Se no so vises do crepusculo, o que eu diviso,  muita gente
reunida na serra de Guilhufe!...

-- muito povo, , snr.^a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas,
as duas amigas da fidalga.

-- caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de servio!... Ahi vem o
sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle
ajuntamento...

Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo,
respondeu,--precedendo um cumprimento de cabea, por lhe no darem logar a
outro--... a Maria da Fonte!

    [1] Na _Historia da casa de Lara_, e n'um manuscripto, de 1676, do
    padre Manoel da Purificao Magalhes, v-se
    escripto==_Avendanho_==; mas os modernos senhores do nome,
    assignam-se--_Abendanho_. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para
    Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu braso compe-se de
    cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas
    manchadas de sangue, com a legenda: _Sine sanguine non est
    victoria_.




II

RUGIDO


  No vdes, que nos destruiremos a ns, e  nossa Republica, se
  intentarmos cousas, que no podem ser, porque nos ho-de dar na cabea
  todos esses remedios?

                                               (_Vieira_--ARTE DE FURTAR.)


Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel raso
justificativa do enleio: aquellas--Maria da Fonte--tiveram esse condo.
Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D.
Maria da Gloria, em direco  sala chamada das visitas, onde estavam os
velhos senhores d'ella.

No seremos exagerados dando o nome de palacio,  nobre e grande habitao,
que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar  sala de recepo,
encontravam-se immensos sales e repartimentos, tudo a desafiar, pela
solidez, a aco do tempo, como so quasi todas as antigas edificaes
portuguezas.

Na sala de visitas, para no desmentir o adagio muito nosso,--Em Maio
florido, ainda ao brasido--havia  lume no fogo. Em cima de uma mesa
circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e
postos nas demais mesas, castiaes de prata, com vlas de cra: moveis de
pau santo, cadeiras de espaldar, com botes de metal e arabscos esculpidos
em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas
geraes.

Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de
fortes lanas reposteiros de grossa bata encarnada, em que se viam
bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da
parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S.
Sebastio, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor
portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D.
Joo, pae de El-Rei D. Sebastio, e depois apreciado por Filippe II de
Hespanha, onde morreu mui favorecido da crte.

Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo
jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de
grossos cordes de sda, de cr verde, as arvores genealogicas dos
Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima
d'ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.

Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da
poca, merecendo especial meno um alto e largo volume, agasalhado em
veludo cr de rosa bordado a ouro, que dava a razo dos nobres appellidos
da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercs a ella
concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal.

Sebastio da Mesquita Bandeira de Mello, pae de  D. Maria da Gloria, e
verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo
portuguez, dos rarissimos que chegaram at ns, sabendo fazer acatar a
nobreza de sangue, que  ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito,
apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes,
castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar
imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.

Affavel em extremo, s era Sebastio da Mesquita, intransigivel, com os
desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se
acolhessem, e mui difficil seria no voltar alli tendo-se l entrado uma
vez. O verdadeiro culto, que prestava  nobreza, levava-o a ser nimiamente
sevro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de
mostral-o mais pelas suas aces do que pela ostentao de seus
pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre.

No se attingiam de repente as sympathias de Sebastio da Mesquita.
Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distinces, sabia occultar
as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que
se lhe deparava occasio, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares,
sobrinho do reitor da freguezia, e, s este, no dizer dos analysadores,
merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.

D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastio da Mesquita era
uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traos de belleza,
pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de
seus cinco filhos vares. Toda  entregue  direco interna do seu casal,
s  noite apparecia na sala das visitas,  hora do ch, servido o qual, as
pessoas estranhas  familia da casa, no a viam mais, at  mesma hora do
dia seguinte.

Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que no imposto, e
adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao
esposo.

A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mlho de chaves prso 
cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--_fidalga das chaves_--dito pelo
povo,  bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e velha
fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam
unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si
do que nos melhores criados e familiares; e no diziam, de nenhum modo,
avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a
denominava--_chaveira dos pobres_,--em grata alluso s immensas esmolas,
que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; alm das que
diariamente se davam  porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se
assemelhava  portaria d'um convento.

Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres
donzellas.

Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27
annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem
affectao; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos;
sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas
com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras
lettras; e o seu verdadeiro  estudo principiou aos quinze annos de idade, e
teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos livros de
seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural talento.

Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a
nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do
plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de
fidalgo orgulhso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos
titulares, todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o
litterato sem diplomas, que se atrevia a mostrar indifferena pelo
dinheiro, o rei do mundo.

Fra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, s era visto Arthur
Soares em casa de Sebastio da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o
considerava do modo que j dissemos.

Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde o
terreiro, ouviram-se badalar as _Ave-Marias_ no campanario da terra, o que
logo fez pr em p os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram as
donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em cro a
conhecida orao da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria
beijar a mo e a face de sua me, e, depois, curvando os joelhos, pediu a
beno ao pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um
respeitoso osculo.

As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mos postas, a beno aos
velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de
Maria, nomes com que Sebastio da Mesquita as dava a conhecer s suas
visitas.

Arthur Soares, sadou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos dedos da
mo direita, e recebeu um amplo aperto de mo do fidalgo, acompanhado das
palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que n'elle demonstrava
contentamento, e interesse pela pessoa a quem o dirigia.

Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos,
occuparam as cadeiras proximas do fogo, Sebastio da Mesquita, D. Izabel e
Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala,
onde podessem confidenciar,  vontade, os mil nonadas, que so os encantos
dos annos verdes, e, algumas vezes, at dos j illustrados pelo estudo.
Rosa, e Anna, ficaram de p, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria:
s tomavam assento na presena dos velhos fidalgos, quando estes
imperativamente o ordenavam. Sebastio da Mesquita e D. Isabel--diga-se a
verdade--no desgostavam d'aquella prova de submisso, e quasi sempre se
esqueciam de lhe pr termo.  que o barro, por mais apurado que seja, tem
asperezas, que s em p se desfazem.

Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com
Arthur o seguinte dialogo:

--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?

--Tenho que dar a v. ex.^a a desagradavel noticia de que o povo se agita em
desordem, comeada por no sei que _Maria da Fonte_ das proximidades de
Lanhso, e temo que os tumultos cresam at  altura de revoluo, porque a
semente lanada pelas paixes partidarias hade produzir os bensses a que
miram os curas da imprensa desenvolta.

-- cousa essa, snr. Arthur Soares, que no deve surprehender aquelles que,
como ns, acompanharam de longe as dissenses, e os desacertos, da familia
liberal, a que no perteno pela communho de idas, mas que desejra, como
portuguez, vr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e faz o povo?

--O povo diz, _que abaixo o ministerio e as contribuies_, e queima os
mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de contribuies,
reprovado, sem analyse sria, pelos partidos da opposio, que incutiram
nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de
documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!

--Quando haver seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de
uma nao?!

--Neguei at hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que j da
gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo
de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da
invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopa, se no tivessem
a macula de fratricidas... Perde v. ex.^a o modo de vr da moderna
eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas pochas
de conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. ex.^a
manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes reinos. Bem
sabe, que sou liberal...

--Sei que  homem de bem, snr. Arthur Soares, e no me repugna a liberdade
de que V. S.^a  apostolo.  licena, ao desenfreamento de paixes
interesseiras, ao que promove a desunio da familia portugueza,  que um
soldado da independencia, como eu fui, no dar em tempo algum o seu
preito.  V. S.^a  o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos os
liberaes de boa f--que muito  para temer a desintelligencia que lavra
entre os que tanto precisavam de unio. Tambem eu partilho esse receio pelo
meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em
mim, para applaudir outra frma de governo. O que eu desejo, antes das
proprias conveniencias,  o bem geral, o engrandecimento d'este torro
abenoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas
luctas intestinas, que nos trouxe a constituio, desdizem da felicidade
por ella annunciada, e quem sabe o que podero causar-nos!...

--Talvez a perda da nossa autonomia...  possivel. Mas as grandes
transformaes sociaes, snr. Sebastio da Mesquita, no se operam sem
abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.^a, que ainda confie no
futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente
devotados  causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos
cargos da governao publica, todos os homens competentes sem distinces
partidarias, pde a no do estado tomar norte, e trazer-nos ras de paz e
de prosperidade.

Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de
Christo, que vinha dar parte a Sebastio da Mesquita de que se achava o
terreiro coberto de povo, e  sua frente o Exc.^mo Leopoldo de Moraes
Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licena para entrar.

Antes de dizermos a ordem que Sebastio da Mesquita deu ao escudeiro,
lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que no sirva de prejuizo ao
cofre nacional, pela falha de direitos de merc, a noticia de haver
_escudeiros_ com habito de Christo, porque  facto averiguado que os houve,
e no sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a
maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e
lealdade.

Segunda: que na rapida descripo que fizermos da guerra civil
contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos
ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os
homens, no temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo
criterio da imparcialidade.

Sebastio da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse
entrar toda a gente. D. Isabel, veiu  sala um pouco perturbada, e
perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o
ch. Sebastio da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica
occasio de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse
com ms tenes fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que
Sebastio da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.

D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas
de espanto pela ordem que ouviram dar, e no de todo livres de receio,
embora tivessem sempre observado no povo extrema considerao pelo velho
fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a
proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua
vontade.

Arthur Soares, collocou-se  esquerda do padrinho com to natural aspecto,
como se fra a continuar a conversa interrompida.

O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre
ella uma espada antiga, com cinturo, que, sem dizer palavra, offereceu a
Sebastio da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que
o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se
dissra--lembraste bem,--e pendurou a espada  cinta, com a pericia propria
de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava
entrada na sala, o Exc.^mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido
friamente: nas tres donzellas,  que se poderia notar a appario d'um tal
ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo
moo.

--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.^a meu presadissimo primo e senhor da
Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas
palavras de mesura palaciana, a que Sebastio da Mesquita correspondeu com
um ligeiro curvar de cabea.

--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.^a em nome da soberania popular,
para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que
na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um
ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratca, semera pelo reino.
A provincia do Minho, ao grito da heroina _Maria da Fonte_, est toda
revolucionada; e dentro em pouco chegaro os gritos do povo aos ouvidos da
cora, que deve fazer justia immediata, como o requerem as anmalas
condies em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente
do que V. Exc.^a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo at ao pao;
logar em que os nossos nobilissimos antepassados j tiveram  a honra de
sustentar na presena da magestade os direitos da nao, com a coragem
revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou s futuras
geraes:--Se no, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e
dirigir a briosa nao portugueza!--Aguardo as determinaes de V. Exc.^a,
que fielmente sero communicadas aos que por ellas esperam nos proximos
sales deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete
dos sentimentos d'elles perante V. Exc.^a No consenti que entrassem n'esta
sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, s quaes
s agora tenho occasio de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a
mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se
dignem perdoar o no ter eu praticado desde logo este dever, em atteno a
que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria misso de que
fui encarregado.

Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou
Sebastio da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor,
abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo,
que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como
possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e
laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho,
mas faceis de inflammar com perfidas insinuaes, principalmente cerca do
perigo que possa correr a religio que professam, e o lar que possuem.

Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as
armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos
domingueiros  a que  obrigada a casaqueta de botes amarellos, e as
espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e
convenientes. Sebastio da Mesquita ia provocando a entrada com as
animadoras palavras:--Vinde, vinde, bons homens. E assim que todos o
podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:

--Ouvi com a devida atteno e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me
meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo
tambem a v. ex.^a Esta espada, que j serviu a nossos avs, para emprezas
importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da
patria,--nunca ser por mim empunhada contra portuguezes e irmos. Fui
soldado da independencia, e no quero outra gloria. Quem deseja conduzir o
povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos,
pde ter ambies a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de
sentimentos, unica que pde distinguir da massa geral dos homens, os
fidalgos e as pessoas illustradas.

Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu
poder, no  raso para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens
prudentes, devem conhecer os demais. Aos no poucos annos que tenho, devo
eu o no poder ser facilmente enganado... No se queria o meu brao, no,
que j mal pde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome
do velho, para servir de joguete a pequenas ambies... No precisa o snr.
meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para
tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que  o caminho
aberto s modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente 
sepultura. E vs, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas
familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre
dos pareceres que vos levam  porta os voluntarios zeladores dos vossos
interesses... Lembrai-vos, que no se devem despresar as lies da velhice,
que so as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.^a
mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sde. Maria, as tuas
interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim
escaparem a algum _discurso_ dos campees de praa... Snr. Arthur Soares e
meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo at
ao terreiro, e vr se pde com a sua eloquencia acabar de convencl-o da
verdade encerrada nas minhas trmulas palavras. Meu primo, querendo v.
ex.^a dar-nos a honra da sua presena, logo que voltem minha mulher e o
snr. Arthur Soares mando servir o ch.

--Agradeo, mas no posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois
do que v. ex.^a acaba de pronunciar...

--N'esse caso,--interrompeu Sebastio da Mesquita--peo as ordens de v.
ex.^a... Joo, acompanha meu primo at ao portal.

Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo.
Este, fulo de clera aamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que
escutra o fidalgo com todo o respeito e silenciosa atteno, e que foi to
rapido na sahida como morso havia sido na entrada.

Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastio da Mesquita,
caminhou este at ao p  das donzellas, pz a mo direita sobre o hombro
esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoo, e
disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te d melhor sorte, Maria!... Depois,
cingiu Rosa e Anna com o brao esquerdo, e disse a todas com igual ternura:
Deos vos proteja, minhas filhas!...




III

AO LUAR

      Na minha terra, uma aldeia,
      Por noites de lua cheia,
       to bella!  to feliz!...
      .............................

        (_Joo de Lemos_--CANCIONEIRO.)


Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides
mres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do
morgadio.

Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino.
Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais
que o rendimento.

Corriam differentes verses cerca da morte inesperada do morgado, que
todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forado d'aquella nobre
casa. No entanto, Leopoldo mostrra-se angustiado com a morte do irmo, e
parecia gosar a herana com a tranquilidade de espirito propria dos
innocentes. Deixra  Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade
de direito, para tomar conta da casa, e voltra mais tarde a concluir a
formatura.

Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que
sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, 
satisfao do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia s logar para a
sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro
objecto, alm da sua figura.

O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe
as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para
s attentarem n'elle e nas suas aces. No havia torpeza que lhe
embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no
trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez,
para de l sahir depois mais furiosa, alcanados que fossem os premeditados
fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as
suas necessidades: os cuidados, agitaes e pesares communs a todo o homem
quando se dilata a esphera dos prazeres, affeies e sentimentos, s
accommettiam o moo doutor na hora em que se convencia de que o mundo
desviava os olhos das suas faanhas.

Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e supprra, com o estudo,
o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escla sua, e
rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. 
crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para
caudatarios, e que so sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede.
E no se verificava, com relao a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja
moeda falsa que empobrece quem  a recebe; muito ao avsso ia logrando
insinuar-se na opinio publica, que foi, e , e ha de sempre ser, a tonta
filha das apparencias.

Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo,
estava desempenhando a commisso, foi interrompido por Leopoldo, que
pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discusso entre os dous,
algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares
deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de
Sebastio da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.

Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das
janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar atteno ao
chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o
luar e a belleza da noite, e lhe perguntra como havia conseguido que o
povo recolhesse a suas casas.

--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando no  capa de occultos
interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei
em linguagem ch, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as
havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.^a,
 que se no convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um
verdadeiro inimigo.

--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. S.^a
tem a nobreza das suas aces, que no podem invejar cousa alguma s do meu
fidalgo primo.

--No me parece tanto assim, snr.^a D. Maria;--arriscou-se a dizer a timida
Anna--O snr. Lencastre   pessoa muito estimavel e virtuosa, no meu humilde
parecer...

--Estimavel; virtuosa e _carinhosa_, deves acerescentar, minha beatinha,
porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeio...

--Valha-te Deus, Rosa, que vs tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do
snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que
nunca me fizesse mal...

--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que
mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur
Soares.--Se no, haja vista esse denunciativo rubr que mais de palpite do
que auxiliado pelo luar, d'aqui imagino vr...

--Peo desculpa de ser contra a sua opinio, snr. Arthur, mas entendo que o
pejo, manifestado nas faces, pde ter variadas origens. A Rosinha tambem
crou, e talvez eu crasse egualmente, quando meu primo entrou no salo; e,
com tudo, no creio que em ns exista sentimento algum reservado.

--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial 
inexcedivel virtude de V. Exc.^a, e  que adorna as suas interessantes
discipulas, o que no obstou a que eu fizesse reparo--confesso-o--em certo
embarao que descobri em todas, na occasio a que V. Exc.^a se refere.

--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razo do nosso abalo;--disse
repentinamente Rosa.--Annitas, crou, porque o fidalguinho lhe no 
indiferente...

--Tens cousas...

--No me interrompas, que ter corao no fica sul a pessoa alguma, O amor,
 toda a historia da  vida das mulheres, como diz um livro, que a snr.^a D.
Maria me ensinou a lr e entender.--Eu crei, por que antipathiso
solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que j me fez a honra
de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.^a D. Maria...

--Eu, menina, no desejo n'este momento ter interpretes dos meus
sentimentos... Subiu-me calor s faces, porque... estava um tanto
indisposta...

-- j tarde, minhas senhoras, e eu vou at  residencia de meu thio, onde
espero conciliar o smno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite,
atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.^a, snr.^a D.
Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arma
das flres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite
de primavera, o suave cantico da voadra cotovia e da poetica philomella, o
murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia,
que tudo isto ajuda a nutrir a imaginao com illuses nascidas da candidez
da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razo.

--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que no
gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a
franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, alis
lindissimo na frma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque no
tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito
reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de
um cavalheiro. Maga-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que 
meu parente; mas no quero que os meus gestos sejam mal avaliados,
principalmente por V. S.^a, que  um  amigo d'esta casa, a quem meu pae
devras estima.

--No me accuso, snr.^a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade
nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.^a, porque me diz a alma que eu
era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me
conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastio da
Mesquita--pde V. Exc.^a crl-o--seria o ultimo da minha vida.

--O que disse, no foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas _ser eu_, a
dizer a V. S.^a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a
narrativa com a natural eloquencia e graa de que dispe a minha amiga
Rosa, deixo-os agora  vontade, para...

--Sou eu que me devo retirar, snr.^a D. Maria... E retiro-me com a
convico bem formada de que _nunca mais_ as minhas palavras, dirigidas ao
snr. Arthur Soares, podero melindrar a minha presada senhora, amiga e
mestra, porque hei de medital-as muito...

--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo
gavio!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do
snr. de Lencastre.

Facilmente se avalia a commoo em sentidos diversos, que soffreram todos
os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor,
sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se
sobranceiro  parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres
donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.

--No me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moo, dirigindo-se para a
janella,--que a snr.^a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo,
fazendo  presente do seu corao e de seus volumosos espiritos ao snr.
Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada
vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que
devras me faz descrr de quantas virtudes podem honrar o corao humano, 
o vr que a snr.^a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que
a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a
pensar sequer na honra de conseguir,  custa dos maiores sacrificios, o que
V. Exc.^a to de barato lhe concede!... Manifestar _ciumes_ ao snr. Soares,
minha nobre prima,  declarar-lhe que o ama!...

--Eu j sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos
formava a base do seu codigo cortezo; mas nunca me persuadi que V. Exc.^a
quizesse l escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter!
Os nossos lacaios, se alguma vez so apanhados a devassar alheias causas,
fogem espavoridos da feia aco que commetteram... O meu nobre primo
_afidalga-se_ com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias,
abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o corao de uma
senhora, que lhe no deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos
seu mentor. S a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum
receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena,
s pouco edificante desde que V. Exc.^a entrou n'ella... Peo ao snr.
Arthur Soares, que seja completamente alheio s palavras e aces do snr.
meu primo; peo-lho pela amisade que tem  minha familia.

-- esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.^a me podia impr...

--Socegue o paladino da nobre castell, que no tem de medir armas comigo,
porque lhe no acceito o repto... E V. Exc.^a, nobilissima snr.^a D. Maria
da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso devi o ficar conhecendo
dos adiantados, prsperos e sublimes amores de V. Exc.^a, com o sobrinho do
senhor reitor... Se me interesso por alguem, no  de certo por V.
Exc.^a... Ha talvez ao lado da minha nobre prima quem saiba nutrir
aspiraes mais fidalgas... Muitas vezes acontece haver discipulos, que
podiam ensinar os mestres...

--Das lies de V. Exc.^a  que ninguem aproveita... disse sacudidamente
Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido
 fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direco d'estes
acontecimentos, que lhe descobriram o corao.

--J me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me tl-a por
inimiga: das mulheres formosas, s nos deve magoar a indifferena...

--E o despreso, snr. meu primo?...

--V. Exc.^a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar
sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.^a
para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.^a D. Maria da Gloria
Mesquita Bandeira de Abendanho, est ligada pelos vinculos _do mais
apertado amor, com dispensa de sacramentos_, ao sobrinho do snr. reitor da
freguezia...

Ainda o snr. Leopoldo no tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra
do insulto, e j o som  de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de
todos.

As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella,
a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido
Arthur Soares que dra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e
dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo
respondeu, que outra mo, mais prompta que a sua, castigra o desaforado
fidalgo.

Fra o caso, que Joo Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda
pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se
cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e l se conservou at ao
momento em que o insulto feito  sua nobre ama, o levou a estender a mo na
cara do petulante com fora tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente
no cho do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o
escudeiro de punhal na mo. Joo Vidal, suspendeu-lhe o brao homicida e
arrancou-lhe da mo a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se
gasta a contal-o.

Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrte que um
homem pde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:

--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingana ha de ser
superior  affronta... No posso medir-me comtigo, villo, mas quero e
hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti,
canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um co
vadio!...

Proferidas aquellas selvagens ameaas, retirou-se  o possesso, a passos
accelerados, no dando assim logar a maior castigo.

Joo Vidal, com toda a submisso e respeito, pediu  sua joven senhora
desculpa para o que fizera sem premeditao, e levado unicamente pela
violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e
ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o
escudeiro fez, sem exitao, pedindo depois licena para retirar-se.

Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso
devia fazer d'aquella arma.

--Guarde-a--lhe disse a fidalga--at que eu lh'a pea.

-- perigoso este instrumento na minha mo, senhora, desde que me vejo
causa involuntaria das mgoas de V. Exc.^a... Esta noite foi para mim ao
mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me
levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito
sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem,
terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima
do cadaver de um inimigo, vilissimo  verdade, mas bem nascido e
poderoso... O que devo fazer em to apertada como temivel conjunctura?!...
No devo escolher entre dous crimes, aquelle de que s eu venha a soffrer
as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma
hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios
religiosos!... Nunca imaginei que seria forado a praticar, o que sempre
tenho rebatido com todas as foras de uma profunda convico!... Adeus,
snr.^a D. Maria da Gloria!... Amanh ser entregue a  V. Exc.^a esta arma
por pessoa de confiana.... Peo-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma
saudade do martyr de umas certas crenas, talvez irrisorias n'esta epocha
de... progressos... Adeus!...

--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que
obrigou Arthur a ficar como petrificado.

--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a
fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os
salutares conselhos de sua boa me, que o snr. Soares muitas vezes me tem
repetido?! Que fez das arreigadas crenas na religio de nossos paes, que o
snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religies,
mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr.
Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinao!... J no quero
fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, s pelo egoismo de
no soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem tem suas
fraquezas... Lembre-se, senhor, que  vida de V. S.^a pde estar presa
alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando
seja absolutamente indispensavel o fazel-o, pde assassinar _alguem_ com o
seu suicidio...

--Pois V. Exc.^a?!!...

--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que
deve ser entregue por V. S.^a _em pessoa_ a mim, ou, de minha ordem, 
minha amiga e discipula Rosa...

Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.

Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espao  de tempo, immovel, com
os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de
estranhas e indecifraveis sensaes. Accordou d'este delicioso e pungente
lethargo,  voz amiga de Joo Vidal, o escudeiro, que o acompanhou 
residencia do thio.




IV

ME E MADRE


      Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em
      v. m. padres de espirituaes exemplos.

                                  (_Fr. Ant. das Chagas_--CARTAS ESPIRIT.)


Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa,
acompanhado de seus lacaios e creados a p, desmontou, seria meia noite,
defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocao de Nossa Senhora
das Candas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascra
na villa de Moimenta da Beira, o doutor Ferno Mergulho, filho de Vasco
Mergulho e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos
rendimentos.

O cavalleiro, bateu to de rijo com a aldrava do porto, que a communidade
inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de
ferro.

Em quanto as novias alvoroadas perguntavam  em voz baixa umas s outras,
o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito
respeitavel abbadessa se erguia com inquietao, foi repetidas vezes
renovado o chamamento com furia egual, se no superior,  das primeiras
pancadas, at que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido
precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu at onde
podsse ser ouvida e, com a maior fora que podia dar  sua voz
septuagenaria, perguntou:

--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!

--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar  senhora
abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de
seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.

A este tempo, j a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e,
reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora.
Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcanado a beno da
abbadessa, fallou assim:

--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a
horas bem importunas, implorar de V. Exc.^a a minha tranquilidade
domestica, porque ha j mezes que me  insupportavel a vida ao lado de
minha esposa e prima D. Leocadia.

No sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do Joo, d'esse
filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de
recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaa-me de
separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que , como V. Exc.^a sabe, a
maior parte da minha casa, se eu no entregar o pequeno  ao destino que
ella lhe queira dar. Eu conheo o corao de Leocadia, e sei que ella 
incapaz de maltratar o Joosinho, e por isso...

--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o
roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma
inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem
salvei a vida com desvlos e cuidados, que talvez custem--quem
sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!...
Nunca, snr.! Nunca espere semelhante aco de sua thia... Deu-me ha tres
annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me,
quando me vi forada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo
Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia.
Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sde ao anginho, que dava gritos
dolorosos!

Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais
formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... No me
foi possivel occultar por muito tempo, s virtuosas madres minhas santas
companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas
tem affecto egual quelle que eu dedico ao nosso bello Joosinho. O nome,
que recebeu no sagrado baptismo,  o do milagroso santo padroeiro d'esta
villa, que ha de abenoal-o e protegel-o...  o enlevo de todas a triste
creancinha;  o cofre em que depositamos as joias das nossas affeies
mundanas. Este nosso affecto, no pde offender nem diminuir o que votamos
ao nosso doce esposo e bom Jesus, que  todo caridade, todo amor, todo
misericordia, todo compaixo  para as fracas creaturas de que  pae
extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez
annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a
separao, porque no pde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu
escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que
me inspire, e tenho f em que hei de acertar...  esta, meu sobrinho, a
minha irrevogavel resoluo. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite
assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita
blasphemia de que, se eu o no recebesse, o deixaria a qualquer canto de
uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse
momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus
esquecer os seus erros!...

Assim fallando, com um tom imperioso e scco, deixou a madre abbadessa
interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, no sem protestar
haver pela fora e violencia, o que  boa paz no pudra conseguir, ameaas
que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.

Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas,
que as novias e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira
attrahiam s suas grades a flr da mocidade das provincias da Beira e
Minho, no s pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente,
pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.

Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo
elegante, distincto em aces e nascimento, que j havia sustentado
bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo  ao
principiar a juventude, crera compromissos de homem feito; e declarava a
sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade
propria dos annos ainda verdes.

Fra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre
abbadessa, em occasies que se tornava expansivo com uma das mais lindas
novias d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com
golodices e innocentes amabilidades.

Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licena para
lr. O conthedo no escripto, fizera-o mudar o semblante to salientemente,
que a formosa novia no resistiu  tentao de perguntar-lhe, que m
novidade o pozra assim.

--Est muito doente, um filhinho que tenho...

--Pois o snr., que  solteiro, tem um filho?!...

--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo
matrimonio.

Amo as creanas em geral, e estremeo aquella a que dei a existencia. Todos
os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de
salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo
algum perderei os sentimentos de que j me orgulho. S reconheo a
legitimidade do sangue, que  perfeitamente igual nos bastardos como nos
filhos do mais santo hymeneu.

--Graas, meu doce Senhor Jesus, que j encontrei o que fervorosamente
pedia  vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das
grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.

Appareceu  grade, acto seguido, a trmula e veneranda  cabea da
respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma
aurola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade,  novia,
que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.

Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do cu o
pequenino Joo, que alli escapra ao abandono de paes desnaturados.

Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil
interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que no seria
difficil conseguir em uma terra certaneja, onde no havia segurana nem
para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas
sagradas dres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro
d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa me, confiaria do seu
cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que
podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver,
podesse haver s mos documentos que aproveitassem ao seu querido filho
adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.

Logo que os soluos e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida
do mancebo, a quem fizera to estranha revelao e ponderoso pedido,
disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em
relao ao futuro da creana, que elle, desde aquelle momento, tambem
adoptava por seu filho.

s onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse at  porta das
cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria l dentro
lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia  de Joosinho, fragil
e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal
affecto.

Ha sempre, mrmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias
nocturnas, homens morcgos, que devassam os mais insignificantes
acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia at ao ponto de
pretenderem sujar o sanctuario da familia com induces calumniosas,
tiradas dos incidentes presenceados, a que no sabem nem podem dar
verdadeira interpretao.

O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos,
por occasio da entrada e tambem da sahida da creana, alguns indicios da
existencia do pequeno Joo junto das freiras, o bom gasalhado que as
trataveis madres davam s suas visitas, e os commentarios exageradissimos
dos vadios indagadores,--foram causas, to indignas como infundadas, da
extinco d'aquelle convento.

 assim, muitas e repetidas vezes, a justia dos homens.

Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi
entregue o pequenino Joo, se chama, n'este conto, Sebastio da Mesquita. E
a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um
indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e me adoptiva--tem aqui os nomes
de Joo Vidal, o escudeiro.




V

UM LEVITA


      Apostolo  o pae que se afadiga
      S para que descance o filho amado;
      Apostolo  a rocha em que se abriga
      Ave agoureira e pobre desgraado;
      Apostolo  a lagrima que amiga
      Cae pela face em peito amargurado;
      E esse monstro do Cu que solitario
      Correu o mundo  busca do Calvario.

            (_J. de Deus_--FLOR. DO CAMPO.)


Em Santiago de Espores--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde
Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e
estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no
Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos
proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome
Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.

Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de ms colheitas,
tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo,
quando mais farto era o anno, com o _avano_ de seu alvitre, segundo o uso
e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro,  que no marcou limite ao juro
para os que o queriam e podiam dar.

 de mui antigas ras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do
Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia
baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustrao do povo, e
tambem, o que peior , em calculadas conveniencias familiares,--d em
resultado a troca de vocaes, padrinho mal de muitas immoralidades e
ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na ida at de evitarem imaginarios
prejuizos, so os paes que forjam a completa desgraa de seus filhos,
marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da
vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem
desastres, para os que o percorrem violentados.

Os pobres lavradores de Espores, convencionaram fazer do seu unico filho
um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vl-o
cura d'almas,  a suprema ambio dos camponezes.

Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos
os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e
para as despezas da ordenao, quando minguassem os rendimentos, passariam
fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, no
conhecem obstaculos.

Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcanara-lhe o pae
alojamento na rua de S. Joo do Souto, em casas da morada de uma viuva bem
reputada e muito moa ainda, que havia calculado augmentar o pequeno
rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um
estudante.

 d'este modo que bastantes familias, nas populaes onde ha lyceus e aulas
publicas, diminuem as suas occultas necessidades.

Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito
portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu
lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade,
e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua
aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.

Eugenia, no houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes
proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que j o
fra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que
todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que
era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um
estudante em sua casa, consultra Eugenia a sua Theresa, que apenas
objectra dever ser o admittido ainda rapaz e no homem feito. N'aquelles
felizes tempos, s depois dos trinta annos completos se gosava o nome de
homem.

Quando a velha Thereza precisava de sahir s compras, Eugenia e Alvaro
prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles
uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter
Alvaro a delicadeza de preceder a patra no amanho das iguarias,
confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de
mos to singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue
traspassa a cuticula, e pde, pelo contacto, communicar as doenas physicas
e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, aps  a
communicao, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de
todos, por ser incuravelmente nervoso.

A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se no cura tendo
a sde na alma.

Decorreram cinco annos.

Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso 
egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de
Eugenia e Alvaro, que j durava muito, livre de vicissitudes e de
impurezas.

Chegou o menorista, de ter passado as frias grandes na sua aldeia, sem
grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra
havida por mais terna:  assim o corao humano.

O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o to
rapida alterao. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella,
como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com
todo o vio de uma feliz mocidade. Fez-lhe um monto de perguntas, e s
teve lagrimas em resposta.

As gotas de humor aquoso que sem a pares dos olhos da mulher estimada,
transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as
sente.

Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer
do soffrimento.

A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio  o
requinte do sentimento.

A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas
da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. No fez
reparo  em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupao
estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direco premeditada.
Ao passar no largo da S, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi
orar. Acabada a orao, reparou n'um vulto encostado a um confissionario,
em posio de penitente, e estremeceu: no a vira, adivinhara Eugenia
n'aquella confessada.

O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?

Nem elle o saberia dizer. S com grande esforo, conseguiu recolher-se a
casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e j quando se
tornou reparada a falta de Alvaro  primeira refeio, entrou a velha
Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.

--Doente, e muito. Diga  snr.^a D. Eugenia, que estou vestido, como v, e
que lhe peo a merc de vir fallar-me.

Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com
sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabea e, sem dar tempo a
perguntas, disse:

--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que v
j buscar meu pae?

--Para qu?!

--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vr se posso
curar-me do mal que me assaltou esta manh, e passar o resto da vida como a
passam meus paes... J no quero ser... _padre_!

--Foi _elle_, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu
amo-te, ouves? e no quero que me fujas... Deus no pde ser to severo
como diz  _aquelle_ seu ministro; ora no?... E eu morria se tu me
faltasses; tenho a certeza de que morria... Vs? S agora, que deveria
proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor,
 que rompo o vu do meu corao!...

A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural
desfecho d'aquellas relaes.

A misso melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, s
devia ser confiada a cabeas muito ss, e a purissimas almas.

Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois
de scenas assim expansivas,  que ns no _ficamos_ pela continuao da
pureza no sentimento.

Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou
habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o
patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar  cidade, em companhia
do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado 
egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros  mais terrivel das
solides,-- solido d'alma!

Chegada a hora da ceremonia, foram vr o religioso e solemne apparato, os
paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o
ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa
Eugenia, com o sangue gelado, nos braos de Thereza. A boa da serva, ficou
tambem semi-morta.

Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de
Espores.

Alvaro, era presbytero!




VI

CELIBATO


      Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas
      vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que
      sabem a sciencia do cu!

                                                  _Alex. Herc._--EURICO.


O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua
naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio
sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a
esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe
vertia o corao. Vivia s para a caridade e para a dr. Decorando, no
Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da
humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e
separado repartimento, na solido do qual, fra das horas obrigadas aos
seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mgoas.

O soffrimento de um filho, no pde ser, por  muito tempo, estranho aos que
lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Espores, conheceram, mais por
instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram
profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e
ficaram surprezos do que viram.

--Que peregrinao ser aquella do nosso querido Alvaro, em noites de
tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de
suas pesquizas.

--Eu sei-te l, homem! S te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come
quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas 
cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lr e a
escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perde,
mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!

--No ha gosto perfeito n'esta vida,  certo. O prazer com que lhe ouvimos
a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios,
desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda
tenho vigor, e no cano nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos
tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu s a vigiar o nosso Alvaro,
porque fico mais  minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a
Deus por ns, sim?

--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.

Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, aps a
sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com
olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e
moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir
signaes  de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposio que fez verter da
testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circla nas arterias e
veias. Encontrou no cho um papel com letras, que no sabia lr, e
guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador  residencia do seu
parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lr o escripto. Resava assim:

No, disse S. Gregorio, que o lao do matrimonio era o nucleo do genero
humano, o esteio da vida e o centro da piedade?

Para qu, os concilios d'Elvira e de Trento?...

Celibato puro!!...

Para qu, decretar contra a natureza?!...

Oh Christo? No quizeste Tu nascer de Maria?... Se no tivesses por
consorte a Cruz da Redempo humana, fugirias Tu a completar, quando homem,
a Tua existencia no mundo?...

Porque no ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do
bem possivel, a casta mensageira entre o cu e a terra?!...

O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu  sua ovelha, que
fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou,
depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fra seu
discipulo.

Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir
da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. Joo do Souto,  cabeceira do
leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo
silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:

--Ento de que mal padece a snr.^a Eugenia, no me dir? As mulheres sempre
so muito fracas! Pois  a molestia que tem,  l cousa para estar com esses
quebrantos?! Ser isso mimo?...

--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as foras me
faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!...
Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... _Elle_, est
cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...

--Em quanto viverem os velhos como eu, no podem morrer assim depressa os
novos como vossas mercs, descancem... Mas porque no fallaram a tempo?!
Porque no confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda
horas de os legitimar aos olhos do mundo?...

--No o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mdo de ajuntar ao meu crime o
seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro  desobediencia.

--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fra melhor que ambos tivessem
mais alguma confiana nos coraes dos outros... Em fim, isso l vae, e o
que no tem remedio remediado est. Agora, cumpre fazermos todos da nossa
parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor
de Deus...

A este tempo sentiu-se rumor  porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a
voz de Thereza dizer:  seu pae!...

--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fra, o
sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos ps do pae, e
titubeou a palavra:--Perdo.

--Levanta-te, que s mais infeliz do que culpado, e para os infelizes
reservou Deus a sua divina misericordia.  Sei tudo, e tambem o sabe tua
me. No te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dres, que so as
nossas, e procuramos-lhe allivio.  preciso que vivas, e que viva tambem a
snr.^a Eugenia. Eu mando, pela voz da religio que tenho n'alma, pela do
sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fr
condemnado pelos fanaticos, j tenho a absolvio do meu santo pastor, que
mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, no falta a Providencia nas
occasies precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de
Santo Adrio de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto
Carreiro, que nunca faltou  sua palavra.  um presente que me faz, disse
elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco
annos, um fro, de dois carros e meio de po meiado, limpo e scco.  um
fidalgo s direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a
reitoria, fica l para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel,
muito longe d'aqui. Eu e tua me de certo l no poderemos ir; mas tu, que
ests na fora da vida, virs amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre
reitor de Santo Adrio, tem na aldeia da sua naturalidade uma irm viuva,
que pde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre...
Repito, eu mando, e quero ser obedecido. No sei o que dizem os livros
sagrados nem os profanos, porque me no ensinaram a lr: tenho s aprendido
o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei
eu as contas por tudo isto. Do escandalo,  que as no hei-de dar, porque
tenho toda a segurana nos bons sentimentos d'aquelles que  preferiam a
morte,  quebra publica dos seus deveres.

Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico
e inspirado,  que fez reparo no quadro que, havia j minutos, alli se via.
Estavam a seus ps, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de
lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na
terra.

Era bello de vr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraando
commovida at s lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo,
fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podrido das
cidades!...

No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na
cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome
de Arthur. Os padrinhos, por procuraes de Sebastio da Mesquita Bandeira
de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e
Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Espores, que deram a
existencia ao reitor de Santo Adrio de Penafiel.

Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo
acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua
residencia uma irm viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo
pelo padre reitor e pela familia, na razo directa do augmento de
beneficios e de consolaes que recebia. Eram seis mos sempre abertas 
pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous
sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrio de
Penafiel. Por isso, o reitor, irm e sobrinho, ganharam  a estima geral, ao
ponto de fazerem dividir, nos coraes de todos os habitantes do valle de
Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastio
da Mesquita.

Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do
padre Alvaro. Foi l toda a gente da povoao. O reitor, leu,
commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e
mestre, o parocho de S. Santiago de Espores. Dizia assim:

Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a
uma triste imposio da amisade. Est devoluta a residencia do teu
patrimonio. Teu pae morreu s dez horas, e tua me  uma da tarde do mesmo
dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar,
que iam pedir a Deus por ti... Resignao.

As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.

Arthur, que ento teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor,
pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das
lagrimas, e disse-lhe:

--No chores, thio, que os avs esto no Cu. Sabes o que hasde fazer?
Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos l d'essa
terra, sim?

--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da
lembrana...

Arthur andou nos braos de todos, e foi devorado com beijos. N'esta
occasio, deu entrada na sala o fidalgo Sebastio da Mesquita, acompanhado
de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina  de treze mezes
de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com
agrado, mais aquella visita.

--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo,
depois de ter saudado a todos.

--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece no ter mau
corao: destinou a habitao dos avs fallecidos para residencia das
pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes
meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrana em fartas caricias.

--Ento j assim caminhamos para o Cu, snr. meu afilhado?! Muito bem,
muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre aco...

--E assim fallando tomou Arthur nos braos e, aproximando-o da filhinha,
fez com que se beijassem os dous innocentes......

Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que
esto dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastio da Mesquita no
templo parochial de Santo Adrio, e batia de manso nas costas de um padre,
que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu
involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feies do seu
amigo.

--Nem tanta penitencia nem tamanha dr, padre Alvaro, que podem no ser do
agrado de Deus. No precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus
cuidados?

--Basta-lhe a proteco do nobre e honrado padrinho... A minha vida, est
n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada s penas eternas!...

--No conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa
involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, s quer vr o castigo, em
vez do perdo?!

--E as leis da egreja?!...

--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados
paes; a considerao, a estima, o respeito geral; as benos dos infelizes
e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais aces
da sua vida?...

--Viverei, snr. Sebastio da Mesquita, e o tempo que me sobrar da
penitencia dal-o-hei  sua heroica amisade!




VII

RAPTOS


      Que pde valer  hebra
      Sentir n'alma chamma infinda?
      como a linda Ester ser linda,
      e amada como Rachel?
      Se o corao da judia
      se entre-abre do amor aos lumes,
      no lhe d tempo aos perfumes
      o seu destino cruel.

      (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM).

      O vicio est por tal frma naturalisado que no ha razo para
      espantos nem sequer para censuras.

                                     (_Camillo C. B._--O CONDEMNADO.)


Foi ephemero o triumpho para a revoluo do Minho, denominada--Maria da
Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de
outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos,
teve, por vontade rgia, sorte igual  do seu predecessor. A esse facto,
que se deu fra das praxes constitucionaes, chamou-se--_emboscada
palaciana_--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.

A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado
governo de faco, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro
de mil oito centos quarenta e seis, uma _junta provisoria do governo
supremo do reino_, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa,
como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se
os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a
alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O
enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria
encontrar-se um portuguez de braos cruzados ante o flagicio geral.

Alm dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar
bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua
quda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegao, e pelo
inquebrantamento da sua f. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem
os velhos ao campo da batalha. Acabaram ento os indifferentes: todos os
portuguezes, cada um a sabr das suas paixes, ficaram empenhados na
luta.

Sebastio da Mesquita foi convidado por um general
estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel
de Bragana, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico.
Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu
estado maior, para lhe dar conselho e fora moral, e apresentou-lhe um
autographo do principe proscripto,[2] que fez abalo na rigidez do velho
fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de
novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e no se passaram muitas
horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu
lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo
previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse
a esposa na vigilancia do seu casal.

Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e
anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastio
da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel
cortejo de lacaios, e crca de cem homens armados, todos recolhidos ao
maior silencio. O capito d'aquella fora e apparato, era o fidalgo
Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalho
addido  brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se
aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela
traio, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte
da Liberdade.[3]

No podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar
aquella fora da sua direco para as cercanias do Porto. O que sabemos
 que aquella gente caminhara de noite, por verdas escusas, no
manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou
sendo um segredo do voluntario capito, e do general commandante da
brigada.

No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde
tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da
fidalga desde a ausencia de Sebastio da Mesquita,  mesma hora da
chegada ao terreiro do j descripto e bellicoso apparato,--havia uma
conversao, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:

--Conheo agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifo--diz-me
com quem vives, saberei os fracos que tens.--Estou supersticiosa com a
nossa Annitas! No sei o que me adivinha o corao... A ausencia do meu
illustre pae e do Joo Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em
no querer pernoitar n'esta casa, so naturaes acontecimentos, bem o
conheo, mas despertam-me uns certos receios que at hoje no conhecia
em mim!...

--Querem vr que ainda lhe lembra a m catadura do irritado primo
n'aquella noite de luar?!... No pense em tal, minha querida snr.^a D.
Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e s
deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.

-- de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da
snr.^a D. Maria, vejo cahir sobre ns a tempestade, como a Rosa lhe
chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...

--Por melhor o far Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente no
desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada me e senhora,
e pr os criados de atalaia...

--Credo! o que ahi vae!... E o mais  que so capazes de reunir em mim,
ao pso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mdo do terror de que as
sinto possuidas...

E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram
fra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.

Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o mu presentimento
revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual
panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. No so virgens
estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de
funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus
membros ao mesmo tempo, vivendo at distanciados uns dos outros. No
sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas  certo que se tem
dado.

Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso,
indo em seguida escutar  porta do quarto da filha, para certificar-se
de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasio
era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do
palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo
de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehenses, quando
sentiram tropel de criados, tomando a direco do quarto, que procuravam
a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte
de que o palacio estava cercado de tropa.

Foi ento que aquellas quatro mulheres, tmidas momentos antes por
ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem,
quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, no so qualidades
alheias ao sexo chamado fragil.

Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra
qualquer aggresso. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de
Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas
as tristes senhoras pela multido de homens armados,  testa dos quaes
se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de
resistir aos intentos de seus perseguidores.

Entre alguns dos criados do palacio, e a fora violadora d'aquelle lar,
houve uma pequena luta--at aquelles serem subjugados pela vantagem
numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, s mos dos
assalariados por aquelle que lhe comprra a fidelidade.

As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas s liteiras.

A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais
leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita
estatua de concentrado soffrimento. Era uma Vilhena a meditar vingana
condigna de to atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas,
disse-lhes D. Isabel com voz severa:

--A infamia no vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos
abeno como Deus vos abenoar. Adeus, Maria!...

Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio
occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D.
Isabel. Esta heroica matrona, teve fora para recolher ao corao as
lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao
malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente
tranquillidade aos que a cercavam:

Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as
almas, do que vr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam
todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e
vossas amigas... J agora no ha tempo para mais reflexes. Apparelhae
todos os cavallos que esto nas cavallarias,--um d'elles para que eu o
possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os
retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a
este palacio. No deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um
fidalgo villo insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre.
Reparae que eu _quero_ caminhar para a residencia do snr. reitor,
alumiada pelas chammas da casa que foi habitao de meus avs!...

Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente
caminhara para casa do reitor ao claro que despedia o fogo lanado de
seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o
incendio provocara.

A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o
toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.

Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse  sala do oratorio da
residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados,
a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.

 mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto,
brandindo um punhal, aquella detestavel arma, j conhecida do leitor,
que D. Maria lhe legra.

    [2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell s pessoas mais
    importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D.
    Miguel de Bragana.

    [3]  notavel a linguagem d'esta proclamao: Portuenses!--O
    general *** volta de novo com a fora de seu commando a aproximar-se
    das linhas do Porto. Elle no confia em si. Confia na traio. Mas
    engana-se. A junta est prevenida. Ninguem ousar dentro dos muros
    do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada.
    Ninguem o ousar. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas
    convenientes esto tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a
    ajuda de Deus, pela intercesso da Virgem, protectora de nossas
    armas e de nossa gloria, o Porto ser sempre vencedor--nunca
    vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os
    ferros, e a assolao a esta cidade ficaro petrificados deante de
    nossas bayonetas. O Porto  a cabea de Medusa deante da qual os
    tyrannos estremecem e gelam de terror.

    .........................................................

    Confiemos na proteco do eterno, e no esforo de nossos braos.
    Transmittamos  posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos
    netos uma rica herana de gloria, e um grande e novo exemplo de
    valor. s armas cidados! s armas! por Deus, e pela liberdade:
    e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre
    heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nao!--Viva a Liberdade!--E
    s armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino,
    em 8 de Dezembro de 1846.

    (Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)




VIII

COMBATE


      O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto
      na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo
      orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe
      importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se
      despedaavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no
      momento dos seus amorosos ardores.

                                                  (_A. Herculano_--EURICO.)


Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia
19 de Novembro de 1846--o seguinte quelle das scenas descriptas no
capitulo precedente--estavam postados  margem do rio Douro, em fortes
posies, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general
Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e
honradissimo militar do tempo do crco, que servia s ordens da junta, e
que recolhia, com a fora de seu commando,  invicta cidade do Porto.

Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem
feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as
suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.

Travou-se combate.

No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a
brida em direco onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:

--General! No  d'este modo que se batem os defensores de uma causa
justa e sancta. Esta espera traioeira a uma fora que nos no aggride
nem mesmo podemos ter como inimiga declarada-- procedimento condemnado
pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa
carreira militar. Se no manda j cessar o fogo, e tocar a retirar,
retiro-me eu immediatamente.

--Faa o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastio da Mesquita, que eu no
desisto do meu empenho em aprisionar o _manta_.

--No o conseguir. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, 
sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e no
creio que nos tornemos a encontrar.

Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.

Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de
Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17
mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem
aprisionado o seu aventureiro commandante.

Quando Sebastio da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro Joo
Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direco
a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda
sensao. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, no pde
suster o velho fidalgo uma exclamao de espanto, reconhecendo sua
mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se
silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abrara
seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais
profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastio da
Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu
e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas
consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O
velho ficra por instantes como fulminado. Quando pde fallar, disse 
esposa:

--Isabel! Acabas de dar-me, com a m nova, mais uma prova do quanto s
digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que s. O que resta
a fazer, compete-me a mim, e cr que Deus me ha-de conservar a vida para
a desfrra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se no morrerem,
ho-de voltar com honra ao nosso poder. A educao e o sangue, so,
n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito.
Socega.--Padre Alvaro, pde voltar a pastorear o seu rebanho. No lhe
agradeo o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com
agradecimentos.--Arthur Soares, sei lr nos seus olhos a sua vontade e
por isso lhe digo que militar desde hoje ao lado de seu padrinho.
Fao-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...

--E para mim, snr. Sebastio da Mesquita,--interrompeu o velho
reitor--reclamo o de padre capello do seu regimento e, se fr
indeferida a minha preteno, como estamos em tempos anormaes,
despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.^a. As
minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a
demora da snr.^a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era no me
apartar um s instante da nobre senhora, que me honrara procurando o
abrigo do meu tecto. No tente demover-me d'este proposito, snr.
Sebastio da Mesquita, que deve conhecer a mgua que a reluctancia de v.
exc.^a me causava.

--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.

Durante o tempo que durou este encontro, explicaes e pactos, foram-se
agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do
combate, e que haviam reconhecido em Sebastio da Mesquita o ajudante do
general _inglez_, como elles chamavam a Mac-Donnell.

O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o
commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamaes da mais
expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes
conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda
a fora de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.

Dispoz Sebastio da Mesquita em aco de guerra toda a sua tropa, e
proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina,
declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer
infraco.

Estavam j em disposies de marcha, para pernoitarem na mais proxima
povoao, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a
cavallo, que chegra alli  desfilada.

Dra a tropa caminho ao recem-vindo, por no haver que temer de um s
homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella appario. A um
signal do esbaforido official, mandou Sebastio da Mesquita fazer campo,
em que ficaram um tanto isolados da fora o recem-chegado, elle e a
familia.

No cabe nas foras de um escriptor do nosso pulso, pintar
satisfactoriamente as gratas impresses e o delirante contentamento de
todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrpida Rosa!

Fra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom
Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as  hospedaria,
teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato
ao que em priso lhe fra dado, onde a sorte quiz que houvesse um
completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina.
Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os
pela farda, descer  cavallaria, ordenar em tom positivo ao curador que
apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos to
seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da
donzella!

Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas
peripecias a que forosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia,
narrou os succedimentos que da liteira poude presencear aps os raptos,
e foi no fim abraada por todos com frenetico enthusiasmo.

No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um
raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda
tristeza, mal que terminra a narrativa.

--Esta, j est salva! e hade ser o primeiro mobil da salvao das
outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastio da Mesquita, cheio do
jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.




IX

AMOR


      AMOR  a palavra, o brado eterno
      Solto por Deus ao vr j feito o mundo,
      Que fez tremer as abobodas do inferno
      E o sol ficou da cr d'um moribundo:
      A primavera, estio, outomno, inverno,
      Terra, cu, alma pura, bicho immundo,
      Tudo ahi cabe  larga de tal modo
      Que n'essa concha Deus se fecha todo.

            (_Joo de Deus_--FLORES DO CAMPO.)


 margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praa de
Valena no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posio, olhando as
viosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--est situado um
sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e
Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro
jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhes.

A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal
da cidade do Porto.

A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzo de maravilhosos
ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com
magnificas e espaosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente
encantadora. O interior corresponde ao exterior, se no o excede, na
vastido, luxo, e boa ordem com que est decorado.[4]

Fra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera
conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas,
ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para
evitar outra fuga como a de Rosa.

Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais
asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse
concedido o eden por homenagem.

Anna facilmente se coadunra com a nova e extraordinaria existencia a
que fra levada pelo crime, por que--j o sabe o leitor--no seio de sua
virginal pureza despontra um sentimento a ella desconhecido, de que o
seu roubador fra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que
elle frma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma,
denominada amor, conserva eternamente nos coraes martyrisados pela voz
do dever e da consciencia.

Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o bero
com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera
das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais
frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras
vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue
ao girar perto de ns em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa
constante e seductora viso da alma semelhante  nossa em corpo da nossa
sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga
moa  posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que
ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do corao, em respeito
ao culto da nobreza que herdra e que lhe fra inoculado ao entrar na
vida pelos seus educadores, reserva esta j trahida n'outra crise, e que
d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este
estado, fra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento
procedimento do fidalgo primo.

Leopoldo, estava apanhado na sua propria rde. Levado por maus
instinctos, e por sde de vingana, premeditou e levou  execuo, sem
ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado
e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade
soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa,  qual votava
entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortra-lhe esse
prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia
facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os
seus caprichos, desfazendo-se-lhe d'este modo, como fatua bolha de
sabo, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella
rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.

Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de
amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse
sentimento moral que subjuga o homem, que  o principio creador de todos
os seus heroismos, que  a razo, o genio, a harmonia, o acto supremo da
alma, a inspirao de Deus!...

O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre
o corao do desgraado em frecha envenenada, que j comeava a
tolher-lhe as funces moraes e o vital respiro da sua vida physica:
amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!

Que terrivel lucta!

Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre
orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer  sua victima,
dominado pelas rijas impresses a que vivem subordinadas as paixes
humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel
peo, preferido no corao do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter,
elevar-se, no infortunio e no martyrio,  sublime condio dos espiritos
privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a
Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria!

Achava-se o voluntario capito das tropas da rainha fazendo parte de uma
fora militar que ento occupava Vianna do Castello. Dispozra tudo de
modo a ter segurana na forada posse das donzellas, que visitava sempre
que podia, ignorando as encarceradas as repetidas ausencias a que era
obrigado o seu fidalgo carcereiro.

Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle
escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.

Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa
destinada aos seus cmmodos, e, sem descanar um s instante da fadiga
da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e
vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de crte. Assim
disposto, tomou direco dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na
ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moa,
sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma
fraqueza, d'uma indeciso e de uns receios taes, que o levaram a tomar
assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo
espelho. Ao vr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto,
mudou Leopoldo de teno, e dirigiu-se com paos ainda mal seguros para
a parte do palacio, occupada pela docil Anna.

Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos
sobre-posse, quella que j no podia nem sabia regeital-os, pelo homem
que a seduzira e arrebatara, e entremos no salo em que D. Maria da
Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperana de
proxima salvao:--as paredes estavam forradas de setim verde; as
janellas todas adornadas de custosas cortinas de cres branca e
amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordes e as
borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadados de
setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a
encarregada de dispr, alli como em todas as salas do aposento de D.
Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de
uma senhora de rgia estirpe,--no deslumbraria mais aquelle recinto. L
dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao
mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos
vigias e guardas de seus movimentos e aces. Os grilhes, eram com
effeito de ouro do mais subido quilate.

Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os
arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus ps
um objecto arremessado de fra, que se apressou a apanhar. Desfez o
embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este
modo:

Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingana, cogitada de
instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!

Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu
ssinho o salvador de v. exc.^a, mas as cautelas tomadas pelo infame
obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastio da Mesquita.

Esse estylete  inutil nas minhas mos e pde convir nas de v. exc.^a.
Para a desaffronta dum homem, no deve servir a arma que se esconde em
bolo falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da
Gloria comprehender melhor do que eu como pde fazer entrega do vil
instrumento no malvado que o sabe usar.

Est a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.^a como creio
em Deus.

                                                                _Arthur_.


Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de
felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o
fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogo que
ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus
subditos. Vira Leopoldo o papel nas mos de sua prima, e a suspeita
dera-lhe animo para fallar:

--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!...
Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?

Por unica resposta lanou D. Maria o bilhete  chamma do fogo.

--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! V como o amor
torna os homens bons e generosos? Qual de ns  o captivo?...

--Infame!...

--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor
governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da
alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperana, e ver
transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz
tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina,  sincero e
augusto... Nasceu subitamente e nem por isso  possivel a sua cura...
Conheo, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a
irresistivel fora dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua
nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim
este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a at no seu despreso
por mim!...

--Infame!...

-- muito, senhora!... No ser prudencia abusar d'esse modo de uma
paixo que deve conhecer verdadeira, e que  capaz das maiores virtudes
como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar
para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as
differentes paixes da vida so uns simples brinquedos... Fechado na sua
formosa mo, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os
seus... At l est tambem o esquecimento para dous homens que me
fizeram ultrages, que s o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mo,
senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo
humilde da sua mais caprichosa opinio... Domarei todos os instinctos,
todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos
seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes...
A nossa unio no pde ter obstaculos legaes e, que os tivra, todos eu
saberia dissipar pela fora d'este amor que  a minha vida, ou que hade
ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia
as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em
que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se
fazer immediatamente, que a minha nobre prima me d uma simples palavra,
uma singela esperana...

--Infame!...

--Oh! que  de mais!...

N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para
ceder  violencia da sua paixo atrozmente insultada pelo sangue frio da
nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas,
na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado
por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capito, o senhor
d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.

O chamamento fra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para
recolher com toda a fora militar ao Castello, d'onde o commandante
resolvera resistir a numerosas foras do exercito da junta do Porto, que
se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a
ordem, quasi com indifferena, voltou Leopoldo  presena de D. Maria,
para lhe dizer com voz pausada e debil:

--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.^a
fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus
criados, e servos de V. Exc.^a para a guardarem com profundo respeito,
mas altero-as ordenando-lhes, que no resistam a qualquer fora que
tente libertar a minha nobre prima...  possivel que seja esta a ultima
vez em que a minha presena lhe provoque esse invencivel tdio... Este
_malvado_, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que
pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdo com
_lagrimas_ de sincero arrependimento...

--Lave com ellas os ps de meu honrado e nobre pae, que deve ser o
primeiro, seno o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o
considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus
remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca
deveria ter servido nas emprezas a que est vesado.

E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma vill.

Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram
seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordo de uma campainha
e esperou o resultado d'esta sua aco. Appareceu um escudeiro, vestido
na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.

--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e
pendure-o  cabeceira do meu leito... Quem de hora vante d ordens
n'esta casa  minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faa-o saber a
todos os seus companheiros. Pde retirar-se.

Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos.
Depois, como se aps intima lucta se fizesse luz no seu espirito,
levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem
acanhamento, e disse-lhe:

--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.^a nunca
por outrem ser amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da
Gloria!...

Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para s
d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--Ao menos foi uma
hora verdadeiro fidalgo... D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de
perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia s a transpr a
barreira de Arthur Soares, que ella no queria nem podia vencer!

    [4] Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de
    Mono no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traos,
    fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz
    o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello
    romance--A Ermida de Castromino--que aquella casa, chamada da
    Berjoeira,  de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta,
    como n'outras descripes e nomes proprios d'este nosso _conto_, na
    parte romantica, no ha alluses a logares certos ou pessoas
    determinadas.




X

RELIGIO


      O mundo que nos tira at o que Deus nos deu, que nos no pde dar
      o que Deus nos tirou, que no tem bem que dure nem cousa que
      permanea,--que cultos merece? que estimaes se lhe devem?

                                     (_Fr. A. das Chagas_--C. ESPIRITUAES.)


Entreteve Sebastio da Mesquita a gente do seu commando, em marchas
vagarosas, e por logares desoccupados de outras foras, porque era seu
unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as
donzellas raptadas; e no podra seguir-lhe a pista com a ligeireza que
requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado,
e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forados
estacionamentos, teve Sebastio da Mesquita occasio de prestar um
relevante servio ao respeitavel ancio que por aquella epocha era
arcebispo de Braga.

Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em
ataque s foras realistas, mandara fazer na manh do memoravel dia
vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram
juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general,
ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese
bracarense para o acompanhar na sua marcha.[5] Aterrado o bondoso padre
por aquella inqualificavel violencia, aps o luctuoso espectaculo que a
precedera, fugira em direco a uma das suas quintas das cercanias de
Coimbra, fuga em que fra auxiliado pela pessoa de Sebastio da
Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas
horas em secreta e intima conferencia.

Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformao: o seu
physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de no
parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina
mudana de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as
indeleveis impresses d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria
levantara uma nsga do vu que lhe cobria o corao, eram por elle
vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre
aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e
 vingana. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao
padre Alvaro, que a religio manda perdoar, e que a doutrina da egreja
quer que se recebam as humilhaes em justa expiao das faltas
commettidas; mas tambem no ignorava que, algumas vezes, sob as proprias
vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cleras. A sua
razo, um pouco obscurecida pelas dres, fluctuava, pois,  merc das
paixes mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos
que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os
estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de
Arthur Soares.

Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deseres do seu
arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastio da Mesquita,
porque possuia a quasi certeza da razo que as promovia.

A intrepida Rosa, com permisso do velho fidalgo, continuava usando do
seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos  familia por um
elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia
de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparies, e de as
commentar mentalmente.

Chegara Sebastio da Mesquita com a fora de seu commando s alturas de
Vianna, e fra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da
junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados
publicos do partido do pao, e os militares de que fazia parte Leopoldo
de Lencastre. No se viu grandemente contrariado Sebastio da Mesquita,
em ser levado ao extremo de batalhar, porque j lhe era um tanto
sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo
pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos
realistas, depois da morte de Mac-Donnell,[6] se terem reunido ao
exercito da junta do Porto.

N'um dos intervallos do assdio, recebeu Sebastio da Mesquita da bocca
de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas,
que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho
fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade
e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.

Chegados que foram s portas do palacio, e tudo disposto para n'elle
entrarem  viva fora, viu Sebastio da Mesquita, com espanto seu,
ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de j no
encontrar alli a quem buscava, e s recuperou o perdido animo quando
susteve em seus braos a D. Maria da Gloria, e viu a seus ps banhada em
pranto a seduzida Anna.

Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstraes de
regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de
novo reunida.

Depois de ter dado o necessario tempo s largas do contentamento de
todos, dirigiu Sebastio da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria,
n'estes termos:

--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...

--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.^a fazel-a
ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.

--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a
nobreza e honradez da tua resposta!...

Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moa fidalga de beijos e
caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.

--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?

A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...

O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora,
alou assim a voz:

--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma
solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, d busca a todo o
edificio e traga-me j aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!..
Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe
faltou para resistir  seduco!...

Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era
o no admittirem rplicas.

N'esta situao, fra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente
do palacio, um extraordinario bulicio.

O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli
tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e
aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.

Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em
poder das foras populares, em direco  praa de Valena, os
prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praas de linha e
cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos
empregados publicos, e de toda a guarnio prisioneira. Arduo trabalho
havia tido a fora conductora, para salvar at alli da sanha popular os
que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, s deviam pertencer
ao poder das leis.

A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira,
com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasio de
subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e
trazel-o pelo brao fra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de
Lencastre.

--Temos contas a saldar, snr. capito, e ser o seu formoso palacio o
logar do ajuste.

--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.^a Rosa, e a minha cobardia, se
m'o concede, no  de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr.
tenente...

--Em sua casa ser obrigado a entrar no repto.

E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salo,
onde Sebastio da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero
resultado da busca a que procedera Arthur Soares.

--A proposito chega e condignamente conduzido  o villo ao seu
prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos ps d'aquella mulher, e
pea-lhe a honra de ser sua esposa...

--Mas... snr. Sebastio da Mesquita... um fidalgo...

--Que serodios e infames brios!...  fidalga,  bem mais nobre do que o
canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por
sua mulher legitima.

--N'esse caso... se V. Exc.^a me affiana...

--Sebastio da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a
transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a
mentira... Para a capella, senhores!...

O nosso velho heroe, no querendo consentir, em nenhum caso, no
casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado
raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela
seduco, alcanra, na conferencia com o arcebispo de Braga, licena,
em frma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o
sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.

Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de
muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da
estrada. Sebastio da Mesquita, que j alli se julgava desnecessario,
sahiu  rua, e tentou pr um dique ao excesso do povo. Foi impotente,
d'esta vez, a sua respeitavel palavra.

O leo popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no
triumpho, aguava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros
estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes s em pedaos
sahiriam!

De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos
para o solo!... Ficaram s de p os prisioneiros e a fora que os
guardava. Estava domado o leo!..

Por quem?...

Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto,
da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara at
ao cume de um pendo--d'onde era visto por todos--e que trmulo e
silencioso, por lhe embargar a voz a commoo, alara ao alto da
veneranda cabea um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7]

Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia
popular, no palacio de Leopoldo.

O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastio da Mesquita:

Salv! religioso e bom povo portuguez, salv!...

    [5] O periodico Estrella do Norte publicou a noticia da
    _intimao_ e da retirada do exc.^mo arcebispo primaz.

    Temos  vista vrios jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem,
    pela desenvoltura da linguagem e calmnias que semearam, corar de
    pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e
    comprehender a sua nobre misso. Um dos mais repugnantes por certo,
    foi aquelle que se denominou--Popular.--O melhor correctivo que,
    em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes,
    foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas
    verdades: O jornalista  o sacerdote d'uma religio, d'uma crena
    social--expe a sua doutrina, discute, convence ou  convencido. A
    sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado  um apostolado
    de paz. Se o seu irmo pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do
    Evangelho--_Fili, peccasti; non adjicias iterum_.

    Para que  incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e
    pratique ahi aces de canibaes? Que civilisao  esta que injura
    as victimas para as immolar?

    No ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como
    me de familias. A sua casa pde servir de exemplo a todas da
    Europa.

    Apraz-nos fazer esta justia. Assim podessemos achar que louvar no
    funccionario como achamos no individuo.

    Por isso  que a nossa voz se levanta contra uma imputao
    injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no
    amigo. (O Espectro de 26 de Fevereiro de 1847.)

    [6] Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara
     rebellio, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um
    sargento de cavallaria das foras da rainha. O Diario do Governo
    de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz
    assim: A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por
    diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.

    [7] Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo
    povo o castello de Vianna.


FIM DA PRIMEIRA PARTE




SEGUNDA PARTE

CRIME

      Eu pintarei o caso com cres bem crimes.

                           (_Chron. de Cister_.)




I
ABYSMO


      Ai do viandante que no v caminho!
      ai do mesquinho sem a luz da f!
      ai! que, na falta d'um amor sublime,
      triumfa o crime, do ludibrio ao p!

          (_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM.)


Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desappario de Joo Vidal nos
ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traou
papel secundario no Conto Portuguez. A ser assim, foi-lhe infiel o
trabalho de imaginao e, temos para ns que por mais vezes, no deslizar
pela fiel narrao do conto, hade o leitor errar seus calculos.--_Em
romance ou folhetim, o verdadeiro  o menos verosmil_:--escreveu com
muita propriedade, em mar de chiste, um nosso festejado folhetinista.

Joo Vidal, o escudeiro, fra mandado pelo amo reconstruir o solar, em
parte presa das chammas, e tractar da administrao da casa. Foi elle o
escolhido por Sebastio da Mesquita, pela illimitada confiana que lhe
devia, e tambem para o desviar dos logares da aco empregada no
livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do
escudeiro a Leopoldo.

A resoluo do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio
mandado lanar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D.
Isabel. Louvra Sebastio da Mesquita aquella inopinada e fidalga aco,
a que o desespro da immerecida e violenta affronta condusira os brios
de uma nobre senhora, que era me, mas facil lhe foi convencer sua
mulher da sem razo de ficarem permanentes os signaes de um crime j
reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.

No teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o
preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi
preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a fora de convencer
seu illustre pae do respeito e das attenes com ella havidas durante o
captiveiro, para conseguirem de Sebastio da Mesquita o esquecimento de
to absurda ida, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir
 que, mais ainda do que as boas razes dadas, imperasse no quietismo de
seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de
soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e
cortar com a sua familia, todas as relaes com a mulher de Leopoldo,
pelo desprso a este votado.

Ao recolher-se com a familia  sua habitao, entregara Sebastio da
Mesquita o commando da fora popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se
conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as aces
intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre
_donzella_, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.

Algum tempo volvido, era Arthur Soares forado pelo seu dever, a narrar,
em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforos
habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo
daquella carta:


Colhi a fatal certeza de que a snr.^a D. Anna soffre a seu marido
constantes dostos, em alguns dos quaes  menos respeitada a boa
inteno do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que
_occultas razes_ determinaram a violencia do seu casamento com uma
_rapariga pobre_! No se queixa a paciente; mas traz escripto na face os
signaes do seu pesar, e gradual definhamento.


Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto
de sua bem formada alma, que Sebastio da Mesquita, dando o pso devido
ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes
e vils provocaes de um depravado senhor  sua escrava. Os dias,
porm, succediam-se na sua marcha natural--que  morosa para os que
esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o
velho fidalgo dsse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio,
que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, no podendo duvidar da
entrega em mo da sua carta, porque o portador fra seguro, resolveu
empregar os seus proprios recursos para adoar quanto possivel a
situao amarga da infeliz Anna, que lhe fra companheira e socia nos
annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resoluo, seguiu-se o emprego
de meios para chegar  falla com a mulher de Leopoldo.

Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forado aposento a
D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas
descriptas no capitulo--_Amor_. Recostada em magnifico sof, e vestida
com singela elegancia, est uma sombra d'aquella Anna, que fra
discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento
Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as
commodidades e posturas de phantastico confrto. Escutmol-os:

--Consinta-me, snr.^a D. Anna...

--Snr.^a D. Anna!...

--Sim, minha senhora,  esse o tractamento que hoje se lhe deve, e no
serei eu que o esquea. V. exc.^a soffre. Deixe-me aproveitar estes
momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe
esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastio da Mesquita de saber
se v. exc.^a era feliz: No . Sei que o seu viver intimo no est em
harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Querer
v. exc.^a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do
mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?

--Infeliz, eu?!... Pois no v o senhor Arthur Soares, como estes
aposentos esto repletos de esplendor e de magnificencia?!... No v
esta mobilia, estes adereos, esta riqueza, este luxo, esta
sumptuosidade rgia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um
lavrador, apenas habituada s palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu,
que s por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D.
Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde
moram as preciosidades?!... No, mil vezes no!... As estatuetas, os
modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos
serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o bano,
a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as
antiguidades, os _recocs_, as reliquias de toda a arte misturadas com
os feitios e labores de toda a imaginao, tudo isto que me _crca_, de
que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e
que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e
nobre,--no ser o gso, a felicidade, a completa ventura?!...

--E as lagrimas, que so o epilogo da formosa descripo que fez, o que
significam, senhora D. Anna?...

--Oh!... Estas lagrimas so... de alegria!...

--E porque no diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de
condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer
o peso de grandezas que no ambicionou, para se aninhar nas pacificas
palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fra suave e salutar
bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente
nobres em todas as suas aces... Por que no revela toda a verdade, que
eu de sobra conheo na excitao que V. Exc.^a manifesta?...

--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo
Leopoldo, que  meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para
onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de
fadas, tudo que uma princeza pde ambicionar...

--Disse o bastante, minha senhora. Agradeo a confiana que em mim
depositou, e que lhe mereo, creia. Peo o favor de confiar-me tambem a
cobrana de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V.
Exc.^a, de que eu estou senhor, que s mais tarde lhe pde ser revelado.
Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda
a gente. Os haveres de V. Exc.^a, se no podem equiparar-se aos de seu
illustre esposo, so, com tudo, sufficientes para darem, em todo o
tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por
escripto, a auctorisao que lhe peo?

--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.

Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de
escrivaninha, onde Arthur, em p, dictou, o que Anna escreveu com punho
firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os
agradecimentos, as despedidas e as recommendaes, em que por muito
entraram os sentimentos de gratido que a pobre senhora nutria por toda
a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos
caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas
naturalissimas expanses, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na
sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o
porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza,
dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o brao para a
conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o
favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa
para o interior do palacio.

Arthur esperou de animo resoluto, como quem descana na paz da
consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.

--Creio que o no fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira
collocar-se  vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com
direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.

--Ouvirei, senhor Leopoldo.

--Peo desculpa de no principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo
que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...

--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma
agasalhar um companheiro de infancia, um como irmo respeitoso e
lealmente affeioado.

--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha
ausencia, para a visita com que V. S.^a quiz honrar esta casa?...

--Porque no me sendo agradavel a presena de V. Exc.^a, devo suppor que
a minha egualmente o no seja ao senhor Leopoldo.

--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, 
segredo para mim?...

--No guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D.
Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta
auctorisao:--Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber
toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.

--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... 
para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...

--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que
S. Ex.^ma esposa _no  pobre_, e que, para cobrar o que lhe pertence, 
que eu vim pedir-lhe este escripto.

--E que validade descobre V. S.^a n'esse papel, que no  authenticado
por mim?... Pois no serei eu o competente para essa cobrana?...

--A esposa de V. Exc.^a ignorou at hoje, que era senhora de fortuna,
como ainda no sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, no pde
ser j aclarado. No se fatigue com perguntas, que no colhe mais
esclarecimentos. V. Exc.^a tem o direito de receber, querendo, o dote da
snr.^a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepo actual,
sou eu o unico competente. No peo mais documentos, nem dou a pessoa
alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do
liquidado e recebido por mim.

--Por hoje, no quero demoral-o mais... Conto que V. S.^a no ha de
recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...

--Sempre s ordens de V. Exc.^a, para o que fr do meu brio.

Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique  torrente
do odio represado no corao de Leopoldo. Ficou o leo rugindo no seu
antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus ps pelo amor e pelo
ciume.




II

FIDALGUIA


       que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou
      por si  grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de
      seus antepassados.

                                       (_V. d'Almeida-Garrett_--HELENA.)


A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.

Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas
as suas foras e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram
nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nao, sendo
leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas
paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as
delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos
desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as naes a
que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sl-o. No lhes ficou
barato o rlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava
nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com
soberbas razes, se devem orgulhar.

Por milagre de esforo, de perseverana, de audacia mesmo, se deve aos
nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais
respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio
portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram _leo dos
mares_, fra bastante, por seus heroismos, a justificar entre ns o
justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais
remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.

Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres
antepassados, s a mesquinha inveja pde desdenhar. E muitos, e tantos,
e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que no cabe n'este
logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos
heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Cames, os
Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis faanhas de
seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados  grandeza da
patria.

Sabemos que  civilisao repugna a _conquista_, embora tenha de
conformar-se com os _factos consummados_; mas quem ha que duvide da boa
f com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religio e patria,
eram os seus estimulos; e  prodigiosa fora de to poderosas ideias, se
devem attribuir as suas heroicidades.

Mas ser _nobre_, nem sempre quer dizer ser _fidalgo illustre_. A nobreza
pde ser herdada, e a fidalguia, as aces briosas, no. Para ser nobre
bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, no se dispensam as
virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e at, e
quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.

Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que
no so nobres.  bom ser nobre; melhor  ser illustre fidalgo; e
optimo, por sem duvida,  ser illustre e nobre fidalgo.

Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mcula na alma,
reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem
distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fra
companheira na infancia, tomra-o elle de boa vontade, porque entendeu
que o fim de Sebastio da Mesquita era proteger a mulher que julgra
infelicitar com o forado casamento. Tardra-lhe porm, a proteco, e
levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar
para Anna um nascimento e um dote.

Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os
inventos trpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram.
Encobrir verdades que pdem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a
qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido
diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de
terceiros,--so culpas venturosas de que s podem accusar-se as almas
boas, e os espiritos elevados.

Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir
d'elle pelo da dignidade, que no conhece obstaculos, porque os
sacrificios alargam-lhe todas as verdas. Estava obrigado
voluntariamente, e s pela sua palavra,  certo, mas por isso mesmo com
obrigao completa, a entregar um dote  mulher de Leopoldo. A evidencia
de um nascimento fidalgo, que tambem asseverra, menos cuidado lhe dava,
porque ouvira a Sebastio da Mesquita affirmar o que elle repetira, e
tinha toda a confiana no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra
do honrado velho. Alm de que, o esclarecimento d'esta circumstancia,
podia demorar-se, visto j ter lanado  imaginao de Leopoldo a
existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.

Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastio da Mesquita,
perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente,
e que havia tomado as suas importantes revelaes na devida
considerao. Esta resposta no aquietou o animo generoso do voluntario
protector. Queria obras, e no palavras, que elle achou frias em caso de
tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.

Obtida uma licena de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares  residencia
de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expanso de um affecto
puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava,
e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia,
ficou o padre mais brio de prazer do que se fra elle o favorecido com
o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao p de um velho
movel, e disse-lhe:

--Esto aqui as nossas economias: so uns vinte e tantos mil cruzados. 
dinheiro de muitos annos guardado por tua me sem prejuiso dos pobres.
Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe
observava que podia adoecer com to aturado labutar, respondia-me que
Deus no havia de condemnar a ambio de me em converter as suas
vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou  fora de
perseverana a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho
producto da roca... Como era boa a tua me, Arthur!... J vs que no
tenho parte n'essa accumulao de moedas, que te pertencem... Mas essa
quantia, bastante notavel para ns,  ainda pequena para dotar a mulher
de um rico nobre... Vamos j a Penafiel... Farei perante um tabellio o
necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades,
que foram de meus paes... A raiz s, porque o uso-fructo deve continuar
a pertencer a uma infeliz familia, que l est por disposio tua... De
certo te no recordas j d'aquella tua _doao_... Eras muito criana
ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...

Velho e moo, sentiram a commoo de duas almas iguaes, quando so
abaladas por aces celestes, e confundiram n'um longo abrao os soluos
e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por
Arthur Soares, saltando-lhe do corao  bcca. O padre Alvaro, ouvindo
chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:

--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!...
Sou eu s a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me
consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te no
repugna o sacrilego... s bom, Arthur, meu filho adorado!... Cr que
tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era
o no poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bcca o dce nome
de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que no desdenhas, que no
amaldias o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da
paternidade legal...

--Perdoar-lhe?!... O qu, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta
alma, que  sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter
coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos
extremos?!... O haver-me dado uma educao de fazer inveja aos mais
poderosos da terra?!... O tornar amnos e felizes os dias da vida de
minha santa me?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa
que me deu vida e felicidade?!...  isto tudo que eu tenho a
perdoar-lhe, no  assim?... Oh! mas no sabe que o meu maior orgulho 
o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me
podia dar o cu?!...

--Basta, Arthur, que me pdes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu
Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este
indigno padre!...

Deixemos o velho Alvaro nos braos de seu filho Arthur, nos momentos
mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se
passa no palacio de Sebastio da Mesquita.

Estamos no salo onde tiveram logar as primeiras scenas d'este
verdadeiro conto. Esto l outros moveis de mais recente data, mas ainda
se alli sente o respeito devido ao que  antigo e bello, porque foram
salvas do incendio as reliquias de familia: So ainda os mesmos os
quadros, os retratos, e os brases. Sebastio da Mesquita est fallando
com muita solemnidade a Joo Vidal:

-- tempo de te fazer mui srias e importantes revelaes, Joo, que
devem mudar completamente a tua posio social. Dir-te-hei tudo em
poucas palavras: sou avsso s phrases de estylo em materias graves.
Recebi-te em criana das mos de uma santa abbadessa, que te salvou a
vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado,
e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o
carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a
revelao do teu nascimento. s filho bastardo de um nobre desnaturado,
que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de
pergaminhos, e vill de sentimentos. Agora que todo o perigo  passado,
aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe
igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela
religiosa tua salvadora, e tua thia-av paterna, e depositado em minhas
mos para te ser entregue quando j no corresses o risco de ser
perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu
pae. Ficas sabendo que s nobre, e na posse de dinheiro, e valores que
oram por cincoenta mil crusados, com a accumulao da parte rendivel.
Fui mu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro,
que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as
especulaes, e que no sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a
leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que s irmo de
Leopoldo...

--Eu, irmo de semelhante malvado!... Snr. Sebastio da Mesquita, meu
amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peo a v. exc.^a muito de
merc, que me continue a graa de o servir... Quero considerar-me sem
parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.^a, e o seu
mais humilde criado...

-- impossivel. Pdes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o
quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e
no de criado da casa. Escusado  instares por outra soluo, que esta
-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou  a de extinguires em
ti o odio que tens a Leopoldo...

--Mas, senhor...

--Esqueceste, Joo, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a
nossa audiencia, que outros deveres no menos graves me chamam a
atteno. Leva o que  teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a
minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.

--V. exc.^a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que no vem ao palacio,
e que parece soffrer bastante...

--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.

Sebastio da Mesquita, logo que Joo Vidal se retirou, ficou entregue a
uma desusada agitao nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da
gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietao s at
ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que
deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o
velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.

--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os
motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devras, e os que
so causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a
queixar-se de alguem d'esta casa?

--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil pde por
ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa  fora
de cuidados e attenes?!...

--Se a sua elegante resposta no encobre nenhum resentimento, porque 
ento que no frequenta esta casa como costumava?

--A minha doena...

--E como se chama a sua doena?...

--Ainda no consultei a sciencia, e...

--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos,
Rosa, que no quer depositar no corao de um velho, talvez por
considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua
atteno ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima
e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o
interesse e affeio que voto a esta donzella, e quella infeliz que
obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos
occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos
sero patentes...  urgente, e indispensavel, que a mulher do _rico
fidalgo_ e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma vill
do marido o desprso pela que foi obrigado a receber por sua legitima
esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu
patrimonio Maria, e a casa de v. exc.^a, minha prima...

--Para que me d o primo parte das suas nobres aces?! Mereo-lhe que
me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resoluo, ainda que por
ella fosse levada  extrema misria?...  injusto, senhor...

--Deixe-me beijar-lhe a mo, minha santa prima!... Nunca duvidei dos
nobilissimos sentimentos de V. Exc.^a; mas cumpria-me consultal-a, e
pedir-lhe auctorisao para o que tenho a fazer, e bem sabe que no sei
faltar ao que devo a mim mesmo...

--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho s a dizer a V.
Exc.^a, que me  inutil um dote, porque estou resolvida a morrer
solteira, e...

--Criana!... No  preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas
minhas mos o teu futuro, e pdes estar certa de que ninguem o velaria
melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma sria reduco nas
despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e
valores que entregaram  minha honra, e que acabo de restituir. Tenho,
portanto, de vender bastantes propriedades...  custoso vr passar a
mos alheias o que era de nossos avs; mas o dever primeiro que tudo...
O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?

--Desejaria saber dizer a V. Exc.^a as mesmas palavras que o corao
dictou  minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque so
perfeitamente iguaes os meus sentimentos...

--Agradeo a todas...

Entrou precipitadamente na sala Joo Vidal, e Sebastio da Mesquita, um
pouco enfadado, perguntou-lhe:

--O que quer, Joo?... Parece que vem como portador de novas
importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de ns, ao que traz
nas mos, e ao demudado da sua cr?...

-- que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos parea ser,
sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma
quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compr o
muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella
contm... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.^a, e
peo que me desculpe o interrompel-o?...

--Deixe-me vr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. Joo de
Lencastre... Conheo este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei,
para a primeira panella que o Joo encontrou na cosinha... Foi pouco
engenhoso na sua cavalheira mentira... No sou facil de illudir; mas, em
compensao, sou facilimo em perdoar aces como aquella que desejou
praticar... Lembro-lhe, porm, Joo, que _s eu_ tenho direito a regular
as minhas generosidades, e que no posso acceitar favores d'essa
ordem... nem mesmo do Joo... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes
parte que Joo Vidal, o escudeiro, passou hoje  posse do seu verdadeiro
nome, e da fortuna que lhe veiu por elle.  bastardo da casa dos
Lencastres, irmo de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o
brilho a gloria de seus antepassados. , pois, na qualidade de nosso
parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa
est sempre vago para os homens de bem.

--Agradeo de toda a alma a V. Exc.^a a immensa honra que me concede, e
que s condicionalmente acceitarei... Perde-me a arrogancia da
phrase... foi dictada por V. Exc.^a que me ensinou os deveres de
cavalheiro...

--Venham as condies!

-- s uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae
praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e no pude, por
que V. Exc.^a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim...
Acabou o constrangimento, senhor, e no tenho j receio de affirmar ao
snr. Sebastio da Mesquita, que se me no permittir o que rogo, fugirei
para muito longe, para onde me no possa chegar...

--E que direito--disse Sebastio da Mesquita, interrompendo-o-- o seu
para fazer um beneficio  senhora D. Anna?...

-- a mulher de meu irmo, senhor!...

Joo Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal,
que as tres senhoras immediatamente estenderam as mos ao ex-escudeiro.

Sebastio da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:

--Est terminada a conferencia... cerca do que pede, eu darei parte ao
_primo_ Joo do que resolver.




III

CIUME


      ................................
      Invejo-te, Cames, o nome honroso,
      Da Mente creadora o sacro lume,
      Que exprime as furias de Lio raivoso,

      Os ais de Ignez, de Venus o queixume:
      As pragas do Gigante procelloso,
      O Cu de Amor, o Inferno do Ciume.

       (_Manoel Maria de Barbosa du Bocage._)


O ciume , por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixes, porque
participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do
corao humano.

Os modos de manifestar to perigosa como prejudicial paixo, variam
tanto quantos so os temperamentos, as indoles, e as educaes das
pessoas sujeitas ao ciume.

O homem rude, que  brutal em suas expanses, no maga mais, com seus
castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez
indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de
favores, que lhe minguaram a burra.

O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias
sociaes, tambem no  o que menos faz sentir  pobre filha de Eva o
castigo de sua egoista paixo. Com a mascara da mais requintada polidez,
fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com alluses, com
toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem  victima a
desfrra de uma resposta.

Fazemos distinco do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O
primeiro, o que procede da alma, no  selvagem nas suas consequencias,
no escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre  debelado pela
resignao e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando
verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo,
o que s tem origem nos sentidos corporaes,  arrebatado, no raciocina
nem perda, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.

Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria
da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que no podia amar.

Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D.
Anna relaes suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um
terrivel inimigo.

Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a ss
com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de
que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada
severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco
civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.

D. Anna, como no tivesse a mais pequena mcula de que accusar-se,
attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle
sido forado a recebel-a por esposa, sendo ella pleba e pobre. A triste
senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo
aos seus pesares, e dava preferencia  Biblia, esse formoso rei dos
livros, e n'ella s divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do
Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre
os sentidos de quem l, e sabe comprehender e crr.

Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:


E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo:  por ventura
licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle,
respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moyss? Elles lhe responderam:
Moyss mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a.
Respondeu-lhes Jesus: Porque Moyss, pela dureza de vossos coraes, vos
permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio no foi assim.
No tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e
femea, e que deixaro pae e me, e ajuntar-se-ho, e sero dois n'uma s
carne, no sendo j dois, mas uma s carne? No separe, logo o homem, o
que Deus ajuntou.


Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou
pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro,
aberto na pagina que lra, pendendo-lhe a cabea para o seio. Era tal a
preoccupao em que se achava, meditando, que no deu pela entrada do
marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as aces de sua
mulher, vendo-a to enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por
cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que
finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos
sorrisos, deu  voz um tom de to meliflua quanto refalsada ternura, e,
juntando a aco s palavras, disse:

--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens
de mais interesse... No me enganei. Olhe, veja a continuao e
concluso das maximas, que tiveram o condo de a fazer ainda mais bella,
levando-a a esse estado e posio elegante de heroina scismadora... Eu,
pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, _se no 
por causa de adultrio_, e casar com outra, commette adulterio: e o que
se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: _E se a mulher
deixa o seu marido e casa com outro, ella  adultera._

De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente
d'aquellas que eu, ao lr-lhe, sublinhei?

--O primo, quasi me assustava, pelo no esperar agora aqui!... Se
comprehendo o sentido do que me leu?!... No sei o que quer que eu
comprehenda?!...

--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de
lhe dizer que no me consta que haja entre ns parentesco algum...

--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento
entre ns...

--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas smente, onde os _nobres_
teem obrigao de saber guardar todas as _conveniencias_: mas, aqui,
escusa a minha estimavel esposa de usar de taes _constrangimentos_...
Pelo que toca  comprehenso do que eu li, parece-me facilima, mrmente
para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos
quiz dizer, que se no pcca repudiando a mulher _adultera_. No lhe
parece?...

--Quem melhor do que o meu esposo, que  letrado, pde entender o que
l?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom
Jesus perdoou  adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado
dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a
lanar a pedra... No nos dir tambem esta humanitaria e sublime
parabula, que se Jesus-Christo no tinha como peccado o desprezo da
adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos
legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com
justia?

--Imaginemos que  assim: apraz-me concordar com os seus _engenhosos_
corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em _amigavel_
controversia, desejava ouvir a sua _esclarecida_ opinio sobre a
_igualdade_ dos deveres... Parece-lhe que o _adulterio_  o _mesmo
crime_ da parte da mulher como da parte do homem?...

--No sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei
detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a
fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher
voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam
levadas a uma tal degradao pelo contnuo desprezo e ardua severidade
dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seduces dos
homens, que as conduzem  quda, para as enlamearem em seguida...

--Para quem no tem _pensado_ no assumpto, desenvolve-o
admiravelmente!... Dou  minha cara esposa _sinceros_ emboras pelo bem
que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da
_letradice_ com que ha pouco quiz honrar-me, que os _maus exemplos_ do
homem nunca podem lanar no leito nupcial um _pequenino ladro_... A
minha _intelligente_ esposa comprehende-me bem, no  assim?

--Se o comprehendo, senhor, devo tambem _observar-lhe_ que os _maus
exemplos_ podem igualmente introduzir o mesmo _roubo_ em alheios
lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentaes, embora
tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que
encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno
egoista.

--Dou lhe palmas, minha _cara_ esposa! Isso  que se chama saber
defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das
defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...

N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram
interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a
introduco, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram
differentes as sensaes manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a
testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia
a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmo
adoptivo...

--O seu rsto, minha _boa_ esposa, formosissimo, mesmo quando _v.
exc.^a_ se acha em perfeita tranquilidade de espirito, est agora
explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a
noticia que nos deu a criada... Muito _feliz_  esse snr. Arthur
Soares!...

--Se a profunda estima de uma irm, que no sabe ser ingrata, pde dar a
felicidade, de certo que  feliz o meu companheiro de infancia, porque o
sei presar como elle merece.

--Hei-de vr se consigo haver d'elle, por _um srio estudo_, o segredo
de tanto se fazer _apreciar_ das bellas... Vamos prestes ao seu
encontro, que estou j ancioso por comear as minhas _experiencias_...

D. Anna continuava a no comprehender os remoques do marido. A boa f, e
a innocencia, so quasi sempre ingenuas.

Chegados  sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares,
Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expanso do _amor sem
desejo_, que assim  definida a verdadeira amisade, ao que ella soube
gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a
manifestar, por contorses nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.

--Venho dar contas a v. exc.^a, e a seu illustre marido, do uso que fiz
da auctorisao que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil
crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro
de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre
impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrana;
mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisao e da
reconhecida bondade de v. exc.^a, passei quitao geral do seu dote pela
quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e
contar...

--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu no posso, nem
quero, entrar no mysterio d'esse _dote_ da minha _prima_ e _cara_
esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e
nunca _esperei_ receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha
mulher _julgar digno_ o receber esse dinheiro, receba-o muito embora,
que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicao.

--No s a considero digna, mas at me parece obrigatoria a recepo.
Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um _dote_, que  meu,
entrega-m'o, porque no hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar
que o meu companheiro de infancia, e bom irmo adoptivo, trouxesse a
esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem no  de crer que
haja quem se desaposse de _trinta mil crusados_, para fazer um beneficio
gratuito. Alm do que, se o meu esposo e senhor pde dispensar este
dote; se eu mesma, por estar no gso da munificencia de meu marido, no
tenho immediata preciso d'elle, pdem de futuro existir outros
interessados, os filhos, que no temos o direito de prejudicar. Acceito,
e agradeo ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu
dote.

--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v.
exc.^a um pequeno servio.

--A snr.^a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...

A este annuncio, que um escudeiro fez em devida frma, ficaram como
interdictos todos os actores da scena que descrevemos. So faceis de
comprehender os motivos da interdico, se o leitor tem attendido o
Conto portuguez.

Sebastio da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria
da Gloria, e que esta fosse acompanhada por Joo de Lencastre: explicada
a inopinada appario, e deixando  capacidade do leitor o avaliar como
seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em
que figuram agora mais dous actores:

--Antes de participar ao primo Leopoldo qual  a commisso de que venho
encarregada por meu ex.^mo pae e senhor, peo-lhe licena para
apresentar-lhe o snr. Joo de...

--Conheo _bastante_, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e
fiel pagem, _que s poderia entrar n'esta casa, como entrou_,
acompanhando a sua dona...

--Engana-se v. exc.^a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos
do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos
sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, 
bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e
dotado por uma sua thia av paterna;  nosso primo e muito intimo amigo;
, finalmente, irmo de v. exc.^a...

--No posso crr que a minha apreciavel prima e snr.^a D. Maria da
Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...

--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lr ficam desterradas as suas
duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.^a, que dar
todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...

--No desejo s dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmo...
Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereo-lhe a
face, para applicar n'ella a pena de Talio...

--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto
como aos laos de sangue que nos prendem, deve-se  vontade e nobreza de
sentimentos da nossa querida prima e snr.^a D. Maria da Gloria, a
espontaneidade com que o abrao, mano Joo!...

--Agradeo ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder.
Agora, passo a remir-me da obrigao que recebi de meu exc.^mo pae:
fao-o mesmo em presena do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e
considerao que todos lhe devemos,  estimado como pessoa de familia. O
primo Joo, entregar ao primo Leopoldo, e  minha boa amiga e antiga
discipula, um movel que contm setenta mil crusados, que tanto importa o
dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de
posse. No foi entregue ha mais tempo, porque s agora se acabou de
liquidar e receber...

Um raio, que n'aquella occasio tivesse cahido na sala, no deixaria
ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao
ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Pde comprehender-se,
mas no  descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur
Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros
expedientes, que Deus concede repentinamente s almas que o merecem,
abrangeu a difficuldade da situao, e desembaraou-a maravilhosamente:

--  snr.^a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que
ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre
padrinho, e senhor Sebastio da Mesquita, logo em seguida a outra de
igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narrao da
verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar
na entrega... O snr. Sebastio da Mesquita, havia-me encarregado da
cobrana de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade,
porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.^a D. Anna, que meu
padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo
n'essa cobrana, o desejo de prestar um servio  minha companheira de
infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do
Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo
isto junto  irreflexo, que eu mesmo classifico de imprudencia,
arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como
devia, uma prvia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo
que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que
j era em seu poder...

--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae
sabe guardar bem os seus segredos, no me confiou essa misso de que o
encarregra...  grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?

--So, apenas, trinta mil cruzados.

--Ento, j a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil
cruzados...  um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que
possue o marido, bem sei; mas que j chega para alfinetes, e para ter
meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo
Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?

--A esse consentimento,  nossa prima D. Anna que hade responder. Da
parte que eu tenho n'esta casa, dispe V. Exc.^a como de cousa sua, que
... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D.
Maria,  vontade de estar aqui s com a sua discipula; e eu sou
obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria
II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para
reunir-me ao exercito.

--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos at Guimares, onde fiquei de
encontrar-me com o snr. Sebastio da Mesquita... Acompanha-nos, snr.
Arthur Soares?

--Com todo o prazer, snr. Joo de Lencastre: no  grande a volta na
jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na
qualidade de soldado do governo supremo do reino...

Para melhor intelligencia da scena que se deu aps as narradas, e com
que vamos fechar este capitulo,  necessario descrever as posies que
occupavam na sala os differentes actores.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vo de uma
das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas
cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava,
no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia
maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. Joo Vidal, ou de
Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de
pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado
por D. Maria e Arthur, conservava-se de p, encostado ao pedestal de um
magnifico relogio, com a cabea levemente pousada sobre os dedos da mo
esquerda.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu
confidencial dialogo. A joven senhora, no acreditra na explicao,
dada por Arthur, cerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com
raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente,  confisso da
verdade.

D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida,
avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca
clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.

Leopoldo, s era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as
vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.

Joo, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de
quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia
prestar muita atteno s paizagens que examinava, e no perdia um s
dos movimentos dos que o cercavam.

D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a
confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso
procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas
suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as
mos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna,
vira aquelles movimentos, preadivinhra o que se havia passado,
chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: Meus
bons amigos! deixando em seguida cahir a cabea no seio de D. Maria da
Gloria.--Era bello aquelle grupo!

Leopoldo, acompanhra aquellas expanses de gratido com olhos ferinos.
De repente, perdeu a cr, sacudiu fortemente a cabea, e dirigia-se, com
passos mal seguros, ao grupo encantador. No podemos calcular o que
teria succedido, se aquella prsa do ciume no fosse logo interrompida
nos seus passos pelo irmo que, com o album aberto, lhe disse:

--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece
ser o emblema do ciume,  realmente curiosa... Figura uma bella mulher
com apparencia de inquietao, e ar de quem escuta... As suas roupas so
da cr das ondas do mar: tem na mo direita um ramo de espinhos, e na
esquerda um gallo... Mantm-se na attitude do desassocgo e curiosidade,
e a cr dos vestidos indica a perturbao da alma... O ramo de espinhos
denota que os tormentos do ciume so acerbos e agudos, e o gallo  o
symbolo da suspeita e vigilancia...  curioso, muito curioso!... O seu
brao, mano Leopoldo, e vamos at  proxima saleta, onde quero fazer-lhe
entrega do movel em que lhe fallou a snr.^a D. Maria da Gloria, e
conversar em cousas de commum interesse...

E sem dar occasio a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou
conduzir sem resistencia, j mais ou menos conscio do ridiculo de que o
irmo o salvava.




IV

O BERO DA MONARCHIA


      Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca,
      de que Ptolomeu faz meno;  porem incerta a conjectura, sendo
      certissima a sua veneranda antiguidade.

                                                      (O PANORAMA DE 1867.)

      A antiga Guimares foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos
      antes da ra christ.

                                                           (PADRE CARVALHO)


      As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a
      cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de
      linho e  ferragens,  importante, apesar de ter decahido depois do
      tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda
      hoje negar o incontestavel merecimento dos tecidos de linho
      adamascados, fabricados em Guimares, que  em durao e primor d'obra
      por certo que no tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos
      industriaes que apontamos, no rendem menos de oitenta contos de reis
      por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no
      anno de 1835, seis contos de reis.

                                                   (GEOGRAPHIA DE URCULLU.)


Parece fra de duvida, que esta bella povoao do Minho, elevada
modernamente  cathegoria de cidade, teve, no seu comeo, duas
existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o
nome de--Guimares--; se  que no serviu tambem de local  antiquissima
cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.

 Guimares uma das terras heroicas de Portugal, por titulos
honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o bero do primeiro rei
portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que aps a gloria de ter fundado
e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinio
de santo, como  affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo
Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que 
contestada, ainda que muito auctorisada, verso de ter sido a patria do
famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de
Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da F--; mais do que 
justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais
finalmente, do que  sua immensa riqueza,--deve Guimares, o seu bom
nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus
filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos
conhecimentos humanos, e  magnifica e incomparavel indole de todos
elles, que sempre souberam reunir  bravura do leo a mansido do
cordeiro,  intrepidez a resignao, e ao uso da caridade a facilidade
no perdo das injurias.

Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos
de Guimares:

Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e
distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9]

Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros
contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimares,
pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e
oitenta.

Joo Gonalves, mais conhecido pelo nome de _Engenhoso_, o introductor
do serrilhado na moeda.

Payo Galvo, filho unico de Pedro Galvo e de sua mulher D. Maria Paes;
entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de
1178; enviado  Universidade de Paris, recebeu l o grao de mestre de
theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado
 dignidade de mestre-escla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o
nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo
Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois
da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de
Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215.
Completou, este douto varo vimaranense, a sua gloriosa carreira,
acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general Joo
Breno,  conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.

O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mr do reino, do
conselho de El-Rei D. Joo III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.

O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicao.

O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de
theologia na Universidade de Coimbra.

O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e
Negrellos, que foi mo fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador
do Pao.

O doutor Gonalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que
comeou a estudar em Guimares, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa,
de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de
Coimbra tomou capllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da
meza da consciencia.

O doutor Balthasar Vieira, mo fidalgo da casa d'El-Rei, que foi
corregedor da crte.

O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a
ordenao, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais
credito.

O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo
de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fra do
paiz.

O doutor Simo Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel
Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do _Axioma_.

O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vr adoptada,
pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade
de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas,
_que se a villa de Guimares no tivera dado de si outro parto, bastava
este sujeito para o seu maior credito_.

O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e
lente na Universidade de Coimbra.

O padre mestre, fr. Jos de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo
Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por
El-Rei D. Pedro II.

O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo,
desembargador e conselheiro da fazenda, mo fidalgo da casa de El-Rei,
e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.

O desembargador Joo de Guimares, embaixador duas vezes  Suecia,
Inglaterra, e Hollanda, moo fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem
de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.

O doutor Joo de Gouva da Rocha, desembargador na relao do Porto, na
dos aggravos, em Lisboa, e no Pao, moo fidalgo, e cavalleiro professo
de habito de Christo.

O doutor Pedro da Rocha de Gouva, irmo do precedente, desembargador do
Brazil, e depois da supplicao, e cavalleiro da ordem de Christo.

O doutor Jos Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.

O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da
mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da cora, e
desembargador do Pao.

D. Gabriel da Annunciao, conego de S. Joo Evangelista, que foi bispo
de Annel, do arcebispado de Evora.

D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.

O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.

O doutor Christovo de Azevedo, fisico-mr do reino.

O doutor Francisco Cibro, medico notavel, e muito conhecido e apreciado
em Lisboa.

Manoel Gonalves, o trovador, morador no _burgo_ da rua de Couros, que
foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.

Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho,
em _oitava rima_.

Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e
fra do paiz, pelo acerto, erudio e credito de suas obras, em que se
mostrou profundo conhecedor, no s das antiguidades de Portugal, como
tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de
Pombeiro, ao p do magestoso tumulo de D. Joo de Mello e Sampaio,
antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.

Martim Ferreira, que salvou Guimares do sitio que tentava pr-lhe o
exercito castelhano, alojado na _veiga das favas_; e que, por uma
cutilada que ento recebeu no rsto, ficou appellidado--o Martim
Narizes.

Manoel Machado de Miranda, senhor do _casal dos Cavalleiros_, e
residente no seu _palacio do arco_, na rua de Santa Maria, poderoso
fidalgo, que prestou assignalados servios ao rei e ao reino, obrigando
seus filhos a continual-os.

Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval
pelejada com os turcos.

Francisco Machado, irmo d'aquelle, que morreu na India, no posto de
capito de infanteria, batalhando pela patria.

Fr. Gualter Machado, irmo dos precedentes, cavalleiro professo na
religio de Joo de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os
turcos.

Fr. Martim Pereira d'Ea, irmo dos precedentes, cavalleiro professo na
religio de Joo de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel
valentia ao lado de seus irmos, regressou ao reino, que encontrou em
guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria,
sendo mestre de campo de um _tero de volantes_, e capito duma
_companhia de cavallos com o titulo de couraas_. Celebradas as pazes
entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi
occupado em visitador das commendas da sua religio, d'onde passou a
recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupao, foi, por algum tempo,
governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres
Vedras, e de S. Joo da Carvoeira.

Joo Machado d'Ea, irmo dos precedentes, que serviu importantes cargos
no Alemtejo.

Gregorio Ferreira d'Ea, irmo dos precedentes, que foi capito-mr de
Guimares, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa
d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.

Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e
cazas do _Rocio da Tulha_, que, depois de ter batalhado n'este reino e
no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas
guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este
rei um alvar, (datado de 2 de maro de 1501) _em que lhe entregou, e
livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade
de uma flr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo
dividido em duas partes, e em duas cres, como , de uma parte de verde,
e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e
parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das
mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se
forem suas proprias armas._

Ferno da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da _casa da rua da
Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graa_, que acompanhou, com
grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragana, D. Jaymes, na
tomada de Azamr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde
fez as suas proezas, que se lem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap.
46.

Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D.
Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel,  tomada de Tunes, passando depois
tambem  India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu
pae, honrando a patria.

Ferno da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18
annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de
Christo, e, dous annos depois, foi capito mr da Costa.

Diogo Lopes da Mesquita, irmo do precedente, que foi intrepido capito
da fortaleza de Maluco, na India.

Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor
e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimares, que teve a honra de
hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de
El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.

Diogo da Mesquita, outro filho de Ferno da Mesquita, o velho, _que,
melhor que todos, realou e eternisou_ seu nome. Foi mandado pelo
viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e,
sendo captivo do rei de Cambaya, por no querer renegar a sua f, e a
sua patria, _foi posto na bocca d'uma pea de artilheria_, sem que um
tal apparato o amedrontasse; e, porque s o quizessem intimidar, e no
matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, _por subido preo_. Vingou
suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, _que era senhor
de tres reinos_; e por este feito se accrescentaram s suas armas _tres
coras e um alfange_, como diz Diogo do Couto, na decada 4.^a, livro
4., capitulo 9.

Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capito da fortaleza de
Chacel, na India.

Ferno da Mesquita, irmo do precedente, que serviu nas Armadas, no
tempo d'El-Rei D. Sebastio.

Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, _morgado rico, e
possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria_, que acompanhou El-Rei
D. Sebastio  batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado,
embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os
turcos.

Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre
de campo em Ceilo, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi
capito mr da Armada, que foi ao cerco de Malaga.

Antonio Peixoto de Carvalho, moo fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da
Pousada, _com suas casas_ _na rua do Val de Donas_, que serviu na guerra
da India, _contra os infiis_, onde acabou a vida.

Joo Vasques Peixoto, irmo do precedente, ao qual fez doao do
morgado, que tomou o habito de S. Joo de Rodes, e mostrou seu valor nas
guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.

Joo de Sousa Alcoforado, moo fidalgo da casa d'El-Rei, _que deixou
mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca_, para servir a
patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus
filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.

Simo Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licena de seu
pae, Joo Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais
valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilo,
ficando-lhe, na escalada, os braos dentro da muralha.

Joo Martins, Annadel mr dos espingardeiros de Guimares, senhor do
morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma nu  sua
custa, e mettendo-se n'ella, _com gente e armas tambem suas_,
acompanhado de seu irmo Ferno Martins, se offereceu a El-Rei D.
Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamr. Por seus
valerosos servios, mereceram estes dois irmos, _grandes mercs e
honras_.

Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastio
 Africa. Ficou captivo, e foi escravo _de dous senhores_. Resgatado,
_com muito trabalho e dispendio de sua fazenda_, foi cavalleiro professo
do habito de Christo.

Salvador da Costa e Almada, morador na _rua Nova do Muro_, embarcou para
a India, onde foi _cabo de_ _tres fustas_, que o governador, Mathias de
Albuquerque, mandou  costa de Ceilo.

Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do
precedente, que foi capito da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na
India, pelejando com grande valor contra os turcos.

Gaspar Leite Pereira, da rua do _Cano das Gasas_, que embarcou para a
India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo _de
Tanaydar e Manor, nas terras de Baaim_. Foi depois mandado, por El-Rei
D. Sebastio,  costa de Guin, por capito do navio--S. Nicolau--.

Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India,
mostrou o seu valor, como diz _A vida do irmo Pedro de Basto_, liv.
2. cap. 13.

Gonalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim
Ferreira na faanha da _Veiga das favas_, onde foi desbaratado o
exercito de D. Henrique 2., de Castella, que tentava pr crco a
Guimares; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves
desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevo Gonalves de Meira,
e Ferno Gonalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros,
obrigaram o rei de Castella a levantar o crco.

Affonso Loureno de Carvalho, que, estando de posse de Guimares o rei
de Castella D. Joo 1., serviu, _por sua traa_, de poderoso
instrumento  conquista que d'ella fez El-Rei D. Joo I de Portugal. Foi
o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, _na ponte do
Sueiro, juncto  ponte de Servas_, Affonso Loureno de Carvalho lhe deu
parte, que conseguira do porteiro e guarda da _porta do postigo_, que
esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e,
aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, _com trezentos de
cavallo_, ficando senhor de Guimares, depois de combate.

Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de
Guimares, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praa,
deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para
servir na feliz acclamao de D. Joo 4.. Foi capito e sargento mr
de infanteria, e governador da praa de Monte Alegre.

Andr Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a
mestre de campo e governador da praa de Miranda, e provedor mr de
Pernambuco.

Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem
o posto de capito de infanteria.

Joo Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua
quinta _de Pombeiro_, para se alistar _na milicia de Flandes_, onde, por
seu valor, mereceu o posto de capito, morrendo, no de general de
artilheria, com grande nome e fama.

Sebastio Salgado de Faria, que, _na guerra de Flandes_ foi _um dos
capites de cavallo de couraas_ com melhor nome no exercito.

Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao
posto de _tenente de mestre de campo general_.

Dionisio da Cunha, que foi valente capito de infanteria.

Pedro Coelho de Miranda, que foi capito dos _privilegiados de Nossa
Senhora da Oliveira_.

Joo Botelho Leite, que foi capito de infanteria, e um dos que
promoveram a feliz acclamao de D. Joo IV.

Joo Rebello Leite, filho do precedente, que, no _primeiro rebate que em
seguida  feliz acclamao, os gallegos deram_ na fronteira do Minho,
foi prisioneiro e levado, _com oito feridas_, ao castello de
Compostella, d'onde, aps dezoito mezes de priso, fez _uma fugida
valorosa_, chegando depois a mestre de campo, e, _com lastimosa
desgraa, morreu de veneno_.

Joo Machado de Miranda, que, deixando em servio da patria os bens em
que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de
campo de infanteria, _e de cavallos_; e, indo a Santarem _reformar o seu
tero, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua
mulata_.

Ferno Ferreira da Maia; Jos Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo;
Joo Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; Andr de Sousa Homem;
Jos Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos
de _capites volantes_, no exercito da provincia do Minho.

Diogo de Freitas, que foi capito de infanteria.

Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e _ajudante de
cavallaria_.

Antonio de Andrade e Valle, que foi _ajudante de Infanteria_.

Joo de Sousa e Lima, que foi _alferes do mestre_ de campo de
infanteria.

Paschoal da Costa, que foi capito de infanteria.

Francisco Machado de Miranda, que foi capito de infanteria; e Antonio
de Barros, que foi _capito de volantes_.

Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas
gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos
tudo, que respeita a Guimares.

E no  s ao sexo forte, que o bero da monarchia deve o seu nome
famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama,
Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa
do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita
no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego
e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e
musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas
mais eruditas do seu seculo.

Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios
e isempes, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores
de Guimares, como no tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da
mesma frma, de toda a razo  o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta
a briosa raa de to heroico povo.

E no resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na
actualidade, provam no ter degenerado aquelle sangue portuguez, to
admiravelmente fertil.

Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por ns apontados, para que
nos relevem o no lhes respeitarmos a modestia em preito  verdade; como
esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueamos
de nomear.

 natural de Guimares, o snr. Jos Arnaldo Nogueira Molarinho,
residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e
de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quaes
teem sido admiradas dentro e fra do paiz.[10]

Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de S
Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a
Europa, recebendo honras, e condecoraes de alguns monarchas.[11]

 distincto, em equitao, e talvez se possa chamar o primeiro
cavalleiro peninsular, o snr. Jos Martins Minotes.

So profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os
senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de
Castro.

 mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.

Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor
Francisco de Moraes Sarmento, apreciado j, nas suas obras, pelo nosso
bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.

Os que hoje representam os antigos fidalgos do Bero da Monarchia, so
todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. No existe aqui, onde a
nobreza  verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que s
prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidado vimaranense,
tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate  porta
por mais humilde que seja.  tambem por isto, que a nobreza vimaranense,
hoje como sempre,  por todos respeitada.

Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua
popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz
honrosa memoria.

Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de
Guimares, tem desafiado a critica mordaz _dos fortes espiritos_ do
seculo, que a chamam _terra retrgrada_.

 certo, que o progresso material no tem entrado aqui, com a velocidade
que fra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente
satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para
comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimares, por sua patria,
muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimao.

Conservam-se,  tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas
n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um
certo sabr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que no trocam
o que foi bom, no passado, pelo que , muitas vezes, futil, e mau no
presente.

O auctor d'estas Linhas, para que o no acoimem de suspeito, declara que
nasceu na cidade do Porto.

Fugimos um pouco do principal fim do nosso conto, chamando os leitores
para o local da aco, em que elle vae continuar, nos seguintes
capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes,
passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.

    [8] Portugal deu  cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S.
    Damaso, de Guimares, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia
    de S. Julio, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado,
    por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir
    em Viterbo. S. Damaso foi o 39. na serie dos pontifices romanos:
    foi-lhe disputada a eleio por Ursino, que as auctoridades civis
    desterraram, sendo confirmada a legitima eleio de S. Damaso;
    tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio
    de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa,
    contam-se as basilicas de S. Loureno, e a da Ardeativa, fra de
    Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas
    dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em
    Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.

    [9] Em um moderno artigo das Artes e letras, que tem por
    epigraphe: Gil Vicente e a custodia de Belem--l-se: Contemplada
    a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada
    que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimares, saltava ao
    espirito a existencia de uma mesma tradico artistica, de uma mesma
    escla. Seria Guimares que teria influido sobre o gosto da
    ourivesaria em Lisboa?  certo que a tradio recolhida por Barbosa
    Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e
    Guimares. Este criterio nos dirigiu nas investigaes, e no
    manuscripto de Christovo Alo de Moraes, datado de 1667, que tem o
    titulo de _Sedatura Lusitana_ encontramos estes factos preciosos:
    _Martim Vicente, foi um homem natural de Guimares; dizem que era
    ourives de prata; no podemos saber com quem casou; s se sabe de
    certo que teve a Gil Vicente._ Isto j bastava para acreditarmos
    que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimares; mas o
    manuscripto genealogico  mais explicito, e declara-nos que esse Gil
    Vicente, filho do ourives de Guimares,  o afamado poeta da crte
    de D. Joo II, D. Manoel e D. Joo III _Gil Vicente, filho unico
    d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante_, e por tal
    foi sempre muito _estimado dos Principes e senhores de seu tempo.
    Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua
    muita graa foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram
    n'aquelle genero. Est sepultado em Evora._ O gro de
    authenticidade que nos merece este manuscripto  irrefragavel; por
    que Christovo Alo de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue
    esta genealogia at 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel
    Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi
    procurador em crtes.

    [10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil
    Vicente, diz: ... e mesmo em nossos dias o grande gravador de
    medalhas, Jos Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para ns essa
    antiga seiva artistica de Guimares.

    [11] O sr. Noronha  auctor da musica da Beatriz de Portugal,
    drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi,
    e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos,
    em Lisboa, e de S. Joo, no Porto. A letra do drama,  do sr. R. C.
    M.




V

BABEL DE SABIOS


      Alli se ajunta bando de casquilhos,
      A que o vulgo mordaz chama rafados;
      ..........................................
      Altercam mil questes; promptos contendem,
      Promptos decidem no que nada entendem.

                  (_Nicolao Tolentino de Almeida_)


--Antes queremos do de _Basto_, snr.^a Anastacia Mendes, do de Basto,
que  macio, e tem corpo... Diga-me... todos ns somos de segredo, e
bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum _peixe_
fresco?...

--Que o houvesse, no era para os senhores, que vo comer a melhor
_carninha_ do meu fumeiro...  dia de jejum, e n'esta casa, louvado
Deus, ninguem _mistura_...

--No quer dizer isso, snr.^a Mendes... O que o Andrade pergunta  se
deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie
dos _infusorios_...

--Dos _rotarios_, snr.^a Anastacia, dos rotarios... Este Abreu  da
mesma fora do Andrade... No sabem classificar as differentes especies
de viventes, que ha no mundo...

--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patra,  de egual ignorancia aos que
censura... A fazenda, que procuravamos  da familia dos _zoophytos_...

--_Medusas_, snr.^a Anastacia, _so medusas_...

--No  tal, so _radiarios_...

--So _enthelmentes_...

--So _arachnides_...

--So _crustaceos_...

--So _annelides_...

--So _molluscos_...

--So _mammaes_...

--So _amphibios_...

--S vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios
falladores: a dos _insectos_, a dos _peixes_, e a das _aves_...

--Para saber fallar  preciso saber ouvir... E quem s tu,  mais
_peixote_ de todos os Peixotos do mundo?!...

--Sou, com vossas licenas, talvez um cavallo, que  o unico animal que
no sabe lisongear os principes do... talento... _Bias_, um dos sete
sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel,  um
tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...

--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os _meninos_ so
engraadinhos, mas eu no os entendo... Escutem todos, e _caluda_...
Chegou hontem _cousa_ de _arregalar_ o olho... Parece, pelo menos,
_varoneza_... Isso  que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os,
de certo... E que palminho de cara!... Parece mesmo a _Madanela_ da
procisso de passos..

--Bravo!...

--Bravissimo!...

--Excellente!...

--Soberbo!...

--Magnifico!...

--Surprehendente!...

--Bom achado!...

--Optima descoberta!...

--Venha essa phenis!...

--Apparea a bella!...

--Surja a estrella polar!...

--D entrada a feiticeira encantadora!...

--Queremos ouvir a cantadeira!...

--Venha a ns, a filha d'Eva!...

--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o
njo da vida... Deixe-me com os seus _eruditos_ hospedes, snr.^a
Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios...
Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa _ingenua_ patra, senhores
curiosos!...

-- arrebatadora!...

--Explendida!...

--Sublime!...

--No busquem outros synonimos, amaveis _sabios_, que j consumiram
palavras de mais em meu favor... Digam-me s, a que _especie de animaes_
fico pertencendo agora?...

-- dos Anjos!...

--Classifica, ento, os anjos de animaes, senhor... no sei como deva
chamar-lhe?...

--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... E como se chama... _V.
Exc.^a_? Hade, ia apostar, ter algum nome de flr, e patronimicos dos
que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheo a origem
de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que
viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares;
outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes
de toda a casta de animaes, peixes, aves, e at de instrumentos... Como
so os seus, minha formosa?

--Quanto ao meu nome, acertou, que  de flr, e das mais _espinhosas_...
Appellidos... Diga-me, meu caro snr. _encyclopedista_, os Bandeiras, e
os Mesquitas, sero dignos da minha... _formosura_?...

--L-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre
portuguez Gonalo Pires Bandeira, vendo, na _batalha do Touro_, que um
cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu
com elle, e lh'a tomou das mos, e a libertou; e por este feito insigne,
El-Rei D. Joo II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leo
n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertra; e no
leo, o valor e esforo que mostrra: e assim lhe deu tambem o appellido
de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o
mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V
passou  Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmos da familia
dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os
mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia,
sem poderem ser entrados; estes irmos, tirando os cintos, e atados uns
nos outros, os lanaram a uma ameia, e subindo por elles, levantaram uma
bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por
este feito to honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em
campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e taches, e
uma bordadura azul com sete flres de liz; por timbre um meio mouro com
uma azagaya na mo, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de
Mesquita. So, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a...
uma lea...

--Acho-os _encarnados_ de mais... A cr do _sangue_, apesar das _garras_
com que _V. Exc.^a_ me honra, affecta-me a sensibilidade nervosa...
Ficarei s com o nome do baptismo... Antes da sua _historica_
dissertao, creio que estavamos na altura dos... _animaes anjos_?...

--Distingo: existem anjos _animaes racionaes_, desde que a cubia, ou o
amor, levou a nossa primeira me ao estado de completa nudez, pelo
peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Ado; desde que um
moo, das maiores esperanas, se precipitou no mais caudaloso rio da sua
patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a
quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de ch, teimou em laval-a
primeiro, por se ter servido j d'ella para o mesmo effeito; e desde que
eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o
cofre de todas as sciencias, e de Marte a _vazilha_ da intrepidez, me
declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de... _V.
Exc.^a_!...

--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa
Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pr a seguinte
inscripo:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar me deu
esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: S Deus no fez aqui
nada... Deixo a _moralidade_,  perspicacia do snr... Peixoto...
Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?

--Para em tudo lhe dar prazer, snr.^a... das anecdotas... Sem embargo do
seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia,
dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moyss
faz d'elles meno; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da
medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros
espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o
talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano
metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de
vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro
soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas
manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto
abundam... S no tenho agora aqui,  mo, um d'esses primores da
inveno humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realar a
peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz
das bellas!...

--_Copia_ admiravelmente de _memoria_, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe
que, para _v. exc.^a_, s poder servir de _espelho_ o lago em que
_Narcizo_ se namorava da sua esbelta figura...

--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que
levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Pde fallar-me
com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, que
reune,  seduco material, a faisca do genio, com que me apraz
emparelhar...

-- _nimiamente modesto_, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos
espelhos, contar-lhe-hei a origem dos _orgos_... So uns instrumentos
de _vento_, compostos de _folles_, _teclado_, e grande numero de
_canudos_... Querem os _chins_, que a inveno de tal instrumento seja
devida ao seu imperador _Hoang-Ti_, que existio, antes de Jesus Christo,
2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12., atrevia-me a chamar a
_v. exc.^a_ um _magnifico rgo_...

--E porque no, n'este seculo das luzes, e de todos os _instrumentos_
possiveis?...

--Porque desde o seculo 13. usam-se orgos nas egrejas, e os logares
sagrados no pdem agradar aos... _materialistas_...

--No me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o
materialista no admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a
reconhecel-o em Guimares, aqui, n'este logar em que discorremos, na
pessoa de minha... adversaria...

--Tambem  _diccionarista_?... A definio que acaba de fazer parece-me
_textualmente_ lida n'um dos modernos diccionarios...

--Serei tudo que quizer chamar-me, menos _plagiario_. So exclusivamente
minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia
innata. No roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem
descaradamente as minhas famosas theorias sobre...

--Sobre _principios elementares de mathematica_, talvez, em que s
fortissimo... Ora, acaba com a scca, que ns tambem smos gente, e
sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...

--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira...
Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se d na casa do _Arco_?

--Como ha-de lograr introduzir-me l?...

--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim;
e como s se tiram as _caraas_ na occasio da ceia, querendo conservar
o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?

--Talvez aceite...

--N'aquella, to tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar
todos os teus intentos... Se fosse em _Villa Pouca_...

--O Arco  mais popular...

--Ser; mas Villa Pouca  mais escrupulosa... O que devras nos espanta,
 que tu no peas, _ tua Convidada_, qualquer remunerao pelo favor
que intentas fazer-lhe...

--Eu no costumo sustentar _assedio_ por muito tempo; costumo, sim,
tomar as praas _d'assalto_...

E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraar
a joven mulher, que lhe auguara a ffa verbosidade; mas teve de moderar
os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim
queria ultrajar.

O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle
momento, dra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:

--Se quizer, _senhor atrevido_, eu substituo esta senhora, para a
realisao da sua vontade; e prometto-lhe que, o _abrao_ entre ns,
ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que
no tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que
d'elle se queria fazer auctor...

A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da
surpreza:--O snr. Joo?!....

--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo
que sou _filho d'alguem_...

A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor ter adivinhado, aps
uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse,
sacudidamente, a Joo Vidal, ou de Lencastre:

--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... ... o meu
amante...

--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamao, sahida simultanea e
admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com
indiscriptivel amargura, aquelle que fra a causa de ella ter apenas
brincado nos labios da donzella.

Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu Joo de Lencastre, aos
que alli estavam reunidos, com to persuasiva eloquencia e vehementedor
que o deixassem a ss com a donzella, que foi immediatamente por todos
attendido.

O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes
dous heroes do nosso Conto, a seu tempo ser explicado.




VI

UM BAILE EM COSTUMES


      David danou diante da arca da alliana, e nos primeiros tempos da
      Egreja havia uma dana, que era a demonstrao exterior da
      dependencia das creaturas, e uma expresso primitiva de
      reconhecimento.

      O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danas,
      que lhe ensinra Aspasia.

      O grave e carrancudo Cato, aos 60 annos, tomou mestre de dana,
      para poder apparecer convenientemente nos bailes.

                                                       (O PANORAMA DE 1837)


Abrira a nobilissima casa do _Arco_ os seus sales ao publico:
dizemos--_ao publico_--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era
prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres aces. Dentro
do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade:
todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho 
terra e s pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento,
isto , menos liberdade em todas as suas aces, apontaria o distincto
fidalgo que recebia. Tal foi sempre o especial condo de toda aquella
sympathica familia, para prem  vontade os seus convidados.[12]

So tres os sales de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do
ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terrao ajardinado: para o do
meio, d entrada um soberbo salo de espera, com duas varandas, sobre o
arco, que olham para a rua, assim como os terraos. Ao salo de entrada,
e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos,
olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a
pessoa collocada no salo do meio defronte da porta da entrada, v todos
os sales e os terraos. A entrada do palacete  por uma larga e bem
construida escadaria de pedra.

N'este baile, onde se vo dar algumas scenas do nosso Conto, foram
permittidas as _caraas_, tendo-se distribuido bilhetes, para os que
assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a
reunio com freneticas danas, e brinquedos innocentes.

Desde a escada at ao ultimo salo, como nos terraos que, pela profuso
de luzes, se no sentia a falta do dia.

O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos
que l devessem apparecer.

Antes de affluirem os encaretados, j se viam, no principal salo, as
nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastio
da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmo Joo de Lencastre.
Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.

Completo o ajuntamento, era bello de vr-se.

Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de
Guimares, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina bata
encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus
grossos cordes, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e
raminhos de violetas.

Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de
botes amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que
lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada
um o brao esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada
sobre a esquerda.

Alm, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevro
magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho
empoado, e de casaca e cales de setim bordado; matrnas respeitaveis,
e jovens senhoras vestidas  poca, no melhor gsto, ostentando a antiga
e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias
de subido preo, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas
familias.

Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica
provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.

Dos grupos camponezes foi composta uma _tocata_, de rebecas, clarinetes
e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros
improvisos do seu _desafio_, concluiram assim:

      Foi o velho rei David,
      o primeiro danador;
      vamos ns tambem danar,
      cada um com o seu amor.

      Fazes mal, linda Maria,
      convidar em lar alheio;
      do temr e d'altivez
      a virtude jaz no meio.

      No te pedi o conselho,
      e vem tarde a correco;
      quem  festa convidou,
      agradece a minha aco.

      O fidalgo que d festa,
      incapaz  de ralhar;
      mas o sabel-o no deve,
      ser motivo p'ra abusar.

      Digam todos que me ouvem,
      se eu me quiz entremetter;
      seja a resposta o signal,
      para a gente s'entreter...

E comeou o baile, vivo, animado, delirante.

Nos pequenos intervallos do bulicio danante, e em quanto eram servidos
os convidados, tinham logar as _intrigas_ ou, sem cheiro de gallicismo,
as mystificaes.

A _vivandeira_, sempre pelo brao do _soldado_, fra a que mais valente
se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos,
simultaneamente, e procurando dar  voz esse tom desconhecido que, nos
bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes,
conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenes. Alm da
agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal
resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e
audaz do militar seu companheiro.

A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:

--Porque no est aqui tua mulher?...

--Porque est n'outra parte... Tu querias conhecl-a?

--Conheo-a, e conheo-te... Ella  uma creatura angelica, e tu s um
marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: Horta sem agua,
casa sem telhado, _marido sem cuidado, de graa  caro_...

E finalisando com uma risadinha aquella alluso, foi dizer a Arthur
Soares:

--Conheo a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... _na
dr de Maria_...

--E no lhe parece motivo de grave meditao o soffrimento da Virgem?...

--Ha dres muito semelhantes, que no merecem ao cavalheiro o menor
cuidado...

--Porque talvez as desconhea...

--No:  porque se no pde dividir _o __sentimento forte_...

--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...

--No  culpado, mas  _causa de culpas_... Quando as conhecer, saiba
comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!

Prepassou rapidamente por junto de Joo de Lencastre, e disse-lhe:

--A palavra do homem de bem  sagrada: conto com o seu silencio...

Em seguida foi collocar-se, sempre pelo brao do soldado, em frente de
uma distincta senhora,  qual dirigiu a palavra n'estes termos:

--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.^a uma
impertinencia: desejava _pagar-lhe o beneficio_ de me trazer a este
baile... D licena que eu falle, minha senhora?...

--Dizia minha av, que _triste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo
calla_... Mas como  para ser _pago_ um favor, venha de l a tua
impertinencia...

--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: _Queimou-se a frca,
cahiu o tyranno_.

--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter l subido
o atrevido que te ensinou...

--Eu, minha senhora, no tomo a mais pequena parte...

--Acredito, dei-te licena, e no te quero mal. Aconselho-te, porm, que
te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a _frca_
pelo _punhal_, que  mais leve, _traioeiro_, e menos _apparatoso_...

O _careta_ vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse
ao _fidalgo antigo_, que estava ao seu lado:

--Conheces aquella senhora, que respondeu  vivandeira com tanta
vivacidade?

--No  a viuva irm do dono da casa?

--. Que juizo frmas da sua alma?

--Parece que no desgostaria de vr continuar a _pernear_ os
_malhados_...

--Como te enganas!...  a alma mais completa e mais sublime, que sahiu
das mos do Creador. As suas aces, so uma perfeita antithese das suas
palavras...

A vivandeira, livre j do peso sob que parecia vergar com a commisso do
companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os
sales, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraos, onde
Sebastio da Mesquita passeava, parecendo alheio  festa. A
_vivandeira_, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e
dirigiu-se ao velho fidalgo:

--A tristeza de que v. exc.^a est possuido, procede do conhecimento da
_fuga inesperada_ de uma donzella, companheira de infancia de sua
exc.^ma filha, no  verdade?...

--No conheo quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que
julga ter para me interrogar...

--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a
que me refiro... Se V. Exc.^a dsse licena...

--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, pde fallar.

-- que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu
incognito...  s pedir, em nome _d'ella_, perdo a V. Exc.^a se algum
desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e
bemfeitora mo...

--Joo, Arthur, meus amigos, venham c!...  preciso obrigar esta mulher
a descobrir a cara...

--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisao do cavalheiro dono da
casa...

--Quero-o eu!...

A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que
repentinamente conheceu a origem da altercao.

A senhora, que dra licena  vivandeira para lhe dizer _uma
impertinncia_, foi a que primeiro a protegeu:

--Estranho que o primo Sebastio, um consummado fidalgo e cavalheiro,
tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou
burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fra minha
filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atrever a
descobril-o...

--Se V. Exc.^a quer, snr.^a condessa, eu levo comigo essa menina para o
convento...

--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. s uma criana to formosa
do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.

--Mas, minha boa irm, V. Exc.^a bem sabe que devemos ao primo e snr.
Sebastio da Mesquita, toda e qualquer satisfao que elle pea; no s
pela qualidade da pessoa que , como por ser nosso parente, e meu
hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...

--Um homem, como nosso primo, nunca pde dar-se por offendido pelo que
lhe faa, ou diga, uma infeliz mulher...  a primeira vez, que ouo
fazer distinco ao meu excellente irmo das _qualidades_ dos seus
convidados... V. Exc.^a no se considerou, para assim fallar, o dono
d'esta casa...

--De certo que no, nem podia, estando V. Exc.^a aqui.

--N'esse caso, eu j dei as minhas ordens.

--V. Exc.^a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser,
no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?

--Agradeo-te a boa e fidalga inteno, meu presado sobrinho e snr. de
Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres aces,
assim o espero em Deus; mas s ainda muito novo para um protector.

--E para mim, prima condessa, no sero estas cans fiana sufficiente
para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?

--A V. Exc.^a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheo
habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peo at a
especial graa de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida 
sua habitao...

--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos
favores e attenes, que me dispensam, no posso deixar, comtudo, de
pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel,
concebido pelo procedimento do snr. Sebastio da Mesquita... S quem o
no conhea, o poder considerar capaz de uma aco menos nobre...
Aquelle respeitavel ancio, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.^as o
accusaram, est soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa
bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi
repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este
baile, s para vr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora
mo... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em
conservar o incognito, que o fez alvo de injustias, que no merece!...
De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdo de tudo esta
infeliz, snr. Sebastio da Mesquita!...

--Rosa!!... Como pde conservar os sentimentos que acaba de manifestar,
a mulher que... que eu no conheo!...

E Sebastio da Mesquita, assim fallando, virou as costas  donzella,
retirando-se vagarosamente.

O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio aps estas
scenas, e, para o fim, com a mesma animao do como.

As dres alheias, no tolhem as festas dos felizes.

    [12] Quando a snr.^a D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de
    Saldanha, que fazia parte do squito da rainha, foi hospedar-se em
    casa do fallecido snr. do _Arco_. Constou ao povo, que o palacete
    estava custosamente adornado, e agglomerou-se  porta, para o vr:
    os criados, no deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado,
    titular, deu-lhe entrada franca, no consentindo que se despojasse
    dos seus _tamancos_, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.




VII

TORMENTOS INTIMOS


      Correu-me a vida outr'ora delirante,
      Tive faceis amores, ledas glorias,
      Julguei-me um dia amado e outro amante,
                  Sonhei promptas victorias,
      E vi, em limpo cu formoso e puro,
      Brilhante erguer-se o vulto do futuro.
                  Tumulto, agitao, rumor, bulicio
                  Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia
                  Paro e vejo o tremendo precipicio--
                                A vida, que vivia,
                  Era vida ficticia e descorada...
                  Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!

                               (SILVA LEAL JUNIOR.--PRIMAVERA.)


Logo que Joo de Lencastre chegou  falla com Sebastio da Mesquita,
depois de lhe dar a raso por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de
lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria,
occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este
muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastio da
Mesquita, com intimo pesar e viva inquietao, a fuga precipitada da
donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os
motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lanando sobre si
indelevel estigma.

No ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se
mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a
donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa
do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se
relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade
importante, a da chegada  terra de uma _rapariga de truz_, que parecia
ser de _facil accesso_, pela pousada que escolhera, descrvendo-a com
toda a minuciosidade.

Agradeceu Joo a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupra
muitas fadigas; e no o enganou a sua esperana, porque era
effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa,
e na occasio, descripta no capitulo--Babel de Sabios.

Depois que Joo conseguira fazer retirar os _petisqueiros_ adoradores de
Rosa, e ficara s com a donzella, empregra, para a obrigar a fallar,
persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez,
com lagrimas de mal escondida affeio. Foi to eloquentemente
irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira
do seu lar, e abandonra a proteco e carinho dos nobres fidalgos seus
paes adoptivos, porque no podra por mais tempo ter occulto no peito o
seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderra por tal
arte, que s pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a
existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D.
Maria da Gloria, senhora que ella amava como irm; e que, para no
prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores,
resolvera fugir, e dar-se como _perdida_, embora tambem estivesse
resoluta na sustentao da sua virtude, mesmo no meio dos mais
arriscados perigos.

Joo Vidal, ou de Lencastre, que a escutra com a maior atteno, depois
de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse  donzella,
que no podendo deixar de ser j um facto conhecido do publico, a sua
fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as
reflexes tendentes  demonstrao do rro de um tal passo; mas que elle
via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella
queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os
amores de sua irm adoptiva, no se expondo a donzella  lucta terrivel
que comeara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia
de trazer necessariamente a perca da sua boa reputao: que elle possuia
um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podssem esquecer os 40 annos
da sua idade, no seu corao havia logar para a entrada de um sentimento
srio.

Rosa, respondeu-lhe commovida, que no era digna de semelhante honra;
que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe
devia por elle o nome de irm, com a santa amisade de um tal titulo.

Foram baldados todos os esforos, que Joo empregra para demover a
donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo
cerca do que entre elles se dra.

No dia seguinte ao do baile, alugou Joo de Lencastre uma casa, situada
defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de
Sebastio da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares s
_linhas_ do Porto, onde eram precisos braos leaes para a sustentao da
causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem
elle, com promessa de l ir ter, logo que podsse fazel-o; e recolheu-se
secretamente  morada que alugra, para de l espiar as aces de Rosa.

Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o corao. Sabia que
era amado por D. Maria da Gloria; j se havia acostumado quelle
affecto, o unico da sua existencia; mas no podia desterrar de si o
convencimento de que a fidalga lhe no podia ser dada por esposa. Era
certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa
estima, considerava elle mais como uma proteco das que usam conceder
os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira,
que iguala e estreita os homens por laos fraternaes: possuia muitas
provas do desapparecimento de affeies iguaes  que lhe concedia o
fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho
de raa do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe
dsse occasio de elevar-se at poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de
fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por
mortalha.

Leopoldo, cuja presena, na illustre casa da hospedagem commum, fra
tolerada por Sebastio da Mesquita em deferencia s conveniencias
sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se
achava ento em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do
nosso tempo.

Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o
sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este
desgraado, que amava sem esperana, e que odiava por ciumes, era um
severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever,
movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de
servir a causa a que se devotra, depois de ter renegado a popular:
n'elle s havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.

Sebastio da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a m sorte a que
se entregra a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no
baile, desejra poder remedial-o, receber nos braos a donzella,
perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda
innocente e pura, e estorvar assim a quda infallivel, e horrenda, da
que elle considerra sempre como sua filha. Mas era j tarde; e o seu
natural orgulho no lhe consentia desmentir, com um procedimento
contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.

Este facto, a par da violenta dr que lhe entorpecera as foras
physicas, fizera pensar Sebastio da Mesquita, com muita gravidade, no
futuro de sua filha Maria da Gloria.

Por maior que seja a confiana que se deposite no caracter e virtudes de
uma filha, quando vemos no caminho da perdio outra mulher, que nos 
cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos
remedial-o com prevenes, algumas vezes, e no poucas, com bem peiores
resultados do que haveria no imaginado mal, que tentramos evitar.

O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do
bero da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava,
escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:


                                             _Minha muito presada Maria_:

O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te
um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te
socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu
merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de
Guimares, presumo eu que existe o que nos convm. Convido-te, pois, a
que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia
da minha escolha.

Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel me, que  sempre o
bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella est de boa
saude, por que no haver dia em que te no escreva, como  pessoa que
ella mais ama.

Recebe a beno, e uma saudade, do teu extremoso pae,

                                                              _Sebastio._


D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho,
a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer,
com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua
discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de no ser j amada por
Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava
ameaada, com aquella ordem paterna.

O padre Alvaro, continuava a sua vida de orao e penitencia. Pastor
exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia
praticar, para com todos, a caridade que aprendra de Christo. Ainda
assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial
egreja, ao p da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas
penitencias, o seu evangelico proceder, para to smente se recordar de
que fra peccador.

Feliz, quanto se pde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os
personagens do nosso Conto, s era a respeitavel e bondosa matrona, D.
Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia
pacifica, e resumidas as suas ambies na direco do seu casal, no
respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.




VIII

A MULHER CAHIDA


      A justia de Deus lhe infundira no corao abundancia de remorsos,
      e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de
      ignominia.

                                  (_A. H._--Fragmento de um livro inedito.)


Por mais que os homens doutamente clebres de todos os seculos tenham
querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a
mulher--na altura que lhe  devida, nunca a fonte sublime do amor, a me
e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por ns
a todos os sacrificios: raro  o homem que se aproxima da mulher sem que
a macule; e feita escrava de seus caprichos,  a deshonra e o
villipendio, que lhe d em premio!

A mulher, na sua juventude, s ambiciona o nosso amor; alinda-se para
agradar-nos, e ns damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixo material
que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta,
porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e ns
cramos de um pejo infame, se a maternidade no teve logar dentro de
umas certas condies sociaes, que nos imprimem a _legitimidade_:
levanta as mos ao cu na velhice, porque a mulher  naturalmente
religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por
seus filhos, por todos os desvalidos; e ns alcunhamol-a de impostra e
de bruxa!

Existiram sempre _philosophos_, escassos de comprehenso, e mal avindos
com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o
vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!

A perverso da moral, e o desenfreamento das vis paixes, tem sido, em
todos os tempos, o resultado foroso de infinitas circumstancias, em que
a mulher no toma parte.

A corrupo da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na
philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e no nas
vilipendiadas matrnas d'aquellas naes.

Antes das torpezas de Messalina, j Cesar tinha manchado o seu thlamo
imperial.

Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades
nefandas, de que nos falla o Gnesis?!

Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a
incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao
nosso proposito: um,  o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu
amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas
commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na
profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a
consolao humana!

A nudez e a fome, tomam ento logar juncto ao umbral solitario da
infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que
passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo bulo da
infamia!...

Depois, as dissolues, a velhice prematura, a miseria e a doena!...

Depois, a enxerga da caridade!...

Depois, a valla commum do cemiterio!...

Depois, nem uma s lagrima que lhe aquea as cinzas; nem uma s flr no
seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...

E o _elegante seductor_?...

Passou a fazer novas _conquistas_; gastou o melhor do seu vigor e da sua
fortuna, em atirar com muitas irms na desgraa ao lado da sua primeira
victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu _convenientemente a
esposa_, fez-lhe a _merc_ do seu nome e, para vingar-se de uma
_affronta_, que _no podia_ ter o seu perdo, assassinou a mulher
adultera!...............................................................

Rosa, luctava com animo viril contra as tentaes de todo o genero de
que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhra.
Eram-lhe, porm, j muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que
os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa,
causavam asco  virtuosa donzella as suggestes das infelizes do seu
mesmo sexo, pervertidas at ao extremo de tentarem chamar ao seu grmio
as que no tinham mcula.

Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo
precipitado a que se abalanara. Conhecra, ainda que tarde, a borda do
precipicio em que estava, receiava pelas suas foras, e tremia de no
saber como fugir-lhe.

Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a
deshoras, ouvir estranhos rumores, fra do seu pequeno e pessimo quarto.
A pouca segurana da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio
da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.

O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente
pelos pulsos:

--No esperava esta desfrra do seu _militar_, amavel _vivandeira_?!...

--Deixe-me... largue-me... acudam!...

--No espante as pulgas, menina... _Esta boa terra dorme toda s nove
horas_, e j passa da meia noite... S poderia esperar beneficio da
minha generosidade, e eu, confesso, no tenho o fraco de generoso...

--No realisar a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um spro de
vida...

-- o que vamos a vr...

E o malvado homem empregava todas as suas foras, em dobrar a mulher,
que no podra seduzir.

Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira
por muito tempo.

Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se
repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua,
abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da
furia do leo, que descarregou sobre a cabea do aggressor uma
fortissima pancada, com o casto de um chicote de fora, estendendo-o
logo sem accordo de si.

--O snr. Joo de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A
mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias,  impotente e
fraca!... Agora o conheo!... Mas... como appareceu tanto a
proposito?!...

--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e
preparado com uma taboa forte e larga, para lanar da minha janella 
varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a
proteco de... seu irmo, senhora...

--Que nobre alma a sua, Joo!... Vamos... deixemos este inferno, e em
sua casa combinaremos o que deva fazer-se...




IX

O PERIGO DAS CARTAS


      ......e bem se manifesta,
      Que so grandes as cousas, e excellentes,
      Que o mundo encobre aos homens imprudentes.

                            (_Cames_--LUSADAS.)


D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafgos e
amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mgoas que
soffriam. Nas suas respectivas posies, no era aquella a epocha mais
infeliz da vida das duas amigas. Quando podmos depositar em peito amigo
o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo
allivio que nos d a certeza da partilha na dr.

Estava, porm, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos
de quietao, para as heroinas do nosso Conto.

A carta que Sebastio da Mesquita escrevera  filha, viera terminar o
gso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da
Gloria, o ser forada a casar-se com outro homem, que no fosse Arthur
Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma
deliberao arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar.
Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:


                                             _Meu presado irmo adoptivo_:

Confiada no seu cavalheirismo, de que j possuo bastantes provas, ouso
pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo aps a recepo d'esta minha
carta. Leopoldo est ausente, como sabe, e _ns_ esperamos o snr. Arthur
_com a maior anciedade_.

                                                                   _Anna_.


Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia
accusar ao pae a recepo da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que
cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse
fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face
dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio,
sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.

Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe
das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.

As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam
soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a _incomprehensivel desgraa_
de Torres Vedras;[13] mas as activas e energicas providencias dos homens
do governo, juntas  dedicao popular pela sua causa, tudo remediavam
como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados,
por cada batalha que se perdia!

E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisaes do
exercito, e de s pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder
da junta, poude esta exemplar quanto energica governao decretar, entre
outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas penses
avultadas, _que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de
Torres Vedras recebessem uma prestao mensal de 12$000 reis, e as das
praas de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em
poder do inimigo_.[14]

O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi
escolhido um official para commandar uma fora, que fosse em
conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em
Leopoldo. Ao saber-se da aproximao de foras inimigas, tocou a rebate
dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente
guarnecidas em frma.

Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnio, que
occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez
da fora inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram
atacal-a. Arthur quiz, mas no o conseguiu, conter os do seu commando.
Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e no podia, nem
queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasio. Anciava que
terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao
chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o
corao, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria
no era estranha no contedo da carta; mas como no podra refrear o
impeto dos voluntarios, foroso lhe foi acompanhal-os.

Empenhado o tiroteio entre as pequenas foras inimigas, cahiu ferido
Arthur Soares, que ficra por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a
que os proprios camaradas do o epitheto infamante de _pulhas_, despojou
logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle
tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta
de D. Anna, que teve a curiosidade de lr; e como visse l o nome de
Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira
em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse
aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que
a encontrra perdida no logar da refrega...

Aquella bala de papel, fra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de
chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...

Leopoldo retirou precipitadamente com a fora do seu commando; e o corpo
de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com
desespro a sorte do bondoso e bravo official.

    [13] Em proclamao do primeiro general da junta do Porto, datada de
    Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, l-se: Soldados!--Nem a desgraa
    da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e
    depois anniquilada por uma _incomprehensivel desgraa_; nem a
    conspirao dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa
    marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas
    descalos, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa
    coragem!

    [14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.




X

O CRIME


      O espirito no lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta
      era o seu maximo supplicio.

                            (_Camillo Castello Branco_. MYSTERIOS DE FAFE.)


D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua
resoluo de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe
que fosse, acompanhada do padre Alvaro,  residencia de D. Anna, e de l
viessem todos ter com elle a Guimares.

A chegada de sua me, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria
novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora
preadivinhara a raso d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar 
filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim
amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolao das suas
evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastio da Mesquita,
os brandos meios da persuaso para o dissuadir da effectividade de um
enlace repulsivo  noiva. Todos de accrdo em demorar quanto possivel a
ida a Guimares, confirmaram a Sebastio da Mesquita a noticia do
incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal no era mentirosa, porque a
donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se no tivesse
fora para resistir  vontade paterna.

Rosa, salva da vergonha e da deshonra por Joo de Lencastre, resolveu
aproveitar-se da proteco do seu salvador, e assentaram de viver, em
Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a
donzella desejos de vr as suas queridas companheiras antes da sua
completa desappario, embora lhes no podsse fallar; e o antigo
escudeiro, que no tinha vontade alheia  da sua protegida, cogitava no
modo de fazer-lhe a vontade.

Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e
dispondo de todas as convulses do mundo, teria conseguido produzir em
Leopoldo uma sensao semelhante  que sentira com a leitura da carta,
que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um
sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vr-se. Depois, de
subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas aces
foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar  retirada, entregou o
commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua
vertiginosa carreira, a chegada da fora ao quartel general. Alli, fez,
como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte
contradictorio e obscuro, que lhe no foi difficil obter a licena, que
febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do
comeo d'uma alienao mental.

Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando
Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto
jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por
todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar
em direco incerta, e com as rdeas soltas, dizia que era um sr
phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastra algumas
horas a percorrer os arredores da sua principesca habitao, para
conseguir introduzir-se l, sem que fosse apercebido.

Estava a romper a manh, quando podra obter entrada por uma janella
baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos
incertos, at ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que
pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e
expondo ao ar a sua abrazada cabea.

Ao voltar a vista para o interior do quarto, j um pouco alumiado pela
frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama no estava deserta,
e foi ajuntar-se-lhe s violentas commoes que o infernavam mais um
mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse
inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus
crimes.

No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a
suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados at
ento por ella e por D. Maria da Gloria,  chegada alli de D. Isabel,
para que esta ficasse junto da filha.

Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um
incontestavel documento de adulterio, as feies do dementado assumiram
as repugnantes propores da mais repelente das mumias; e monologou
terrivelmente:

Ests no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a
infidelidade, ser manchado pelo teu sangue villo!... No mais
acordars d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megra te ho de
trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar
aps de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vres a tua carta,
que o diabo me levou s mos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar,
porque antes ter este punhal atravessado o teu infame corao!....

E, fazendo o que dissra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna,
apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e
enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...

A desgraada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da
suprema agonia, e cerrar os olhos.

Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta
um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado
ao cho, sem foras nem deliberao para fugir. Estava assim havia j
muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas
em traje de romeiros que andam em peregrinao. Os recem-chegados, ao
tomarem conhecimento da tragedia que tinham  vista, ficaram por um
pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu
mover-se, foi cahir com a cabea sobre a da assassinada, lavando-lh'a
com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais
terrivel que o desespro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo
tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:

--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... No posso
eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraa! disseram-me que
era teu irmo!... Mas Deus a vingar, malvado!... O teu futuro hade ser
de cruel expiao, cr!... O maior castigo que te espera,  o
prolongamento da vida que tens a viver!...

E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--Ainda
lhe pulsa o corao, e o padre Alvaro est aqui!... E saiu rapidamente
do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.

O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime
ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava
ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficra de seguida ao crime.

O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe
com brandura:

--Irmo! Ajoelhe, que est na presena de um Deus misericordioso e
vingador!

Ao contacto d'aquella mo, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez
Leopoldo um movimento de cabea, assomou-lhe aos labios um riso idiota,
e tartamudeou:

--No acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor...
No me hade trahir que  nobre... O punhal est guardado... Ella
disse-me que era uma arma vill, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade
amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um
duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me
no conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cspe injurias
a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdo!...
Perdo!...

--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo
a bem morrer,  menos desgraada do que o seu assassino!...

Haver quem no trema da vossa justia, meu Deus?!...


FIM DA SEGUNDA PARTE




TERCEIRA PARTE

REMORSO


      Para que venha sobre vs todo o sangue dos justos, que se tem
      derramado sobre a terra...

                          (S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).




I

GRATIDO


      Tira-me j do p'rigo, amigo honrado,
      Depois solta a prelenda.

               (_Filinto Elysio_--APOLOGO)


 menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas
a compensao do rigor d'este axioma, est na raridade com que se faz um
favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas
reconhecidas; mas  grande o numero das que sabem calcular o provento,
mais ou menos proximo, de suas generosidades.

O genero de maior consumo no mercado da vida humana,  o egoismo, a que
chamaremos, por antonomasia, o _verme do corao_.

Os factos, porm, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da
regra geral do egoismo do homem, por que  d'ella, na maior parte das
suas aces, a santa abnegao: a mulher perde-se pelo amor, o homem
gloria-se com elle; a mulher serve  ambio do homem, e  por elle
escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os
muitas vezes...........................................................
.......................................................................


Quasi  mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da
segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos
restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida
nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prvio
consentimento de sua me, e que dizia assim:


                                          _Exc.^ma e respeitavel senhora_:

O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um
ferimento grave, mas no mortal, que recebeu em um ataque dado pelo
inimigo s linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.^a em
seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.^ma Snr.^a
D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. S uma
impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida 
recepo da carta que o chamava,  que estorvaria o meu camarada e
amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.^ma
irm adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem
o meu camarada sentido o vr-se at impossibilitado de escrever; e eu,
accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura;
podendo V. Exc.^a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que,
finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. No vae
dirigida  snr.^a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no
campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella
respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse
parar s mos _d'alguem_, que, por m interpretao, tenha ficado com
suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta
interceptada.

No obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da
sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de
recolhimento ao ferido.

                                   de V. Exc.^a m.^o att.^o v.^or e cr.^o

                     _O tenente da 2.^a comp.^a de voluntarios do Minho_.


Desde o comeo da leitura, que D. Maria da Gloria ficra excessivamente
pallida e trmula; mas a sua dr, por demasiado violenta, no deu
accesso s lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha,
perguntou-lhe o contedo da carta, que ella teve a coragem de lr
segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua me.

--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dr surda, do que se te vira
coberta de pranto...  ento incuravel o affecto que nutres por Arthur?

--S a morte o pde curar, minha respeitavel e muito presada me e
senhora: se at agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais
solemne das provas...  a primeira vez que lastimo a minha condio de
nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de
Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza,
livre dos preconceitos e obrigaes sociaes, que podesse seguir os
impulsos do corao sem constrangimento nem temr...

--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres
sacrificar-te?!...

--Conheo, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa me: Arthur,
sabe que  amado por mim, adora-me, e nunca da sua bcca sahiu uma
palavra, que meus paes no podessem ouvir. Podia estar ao meu lado,
gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que s
d o verdadeiro amor, e fugiu-me, para no prejudicar a minha reputao,
porque receia no poder desposar-me. Todas as aces de Arthur, so de
uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre
pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convico
de que ella era desprezada por ser pleba e pobre: disse-o, por carta, a
seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo  sua
protegida,  que adoptara por sua filha,  que obrigara a casar-se com o
seu tyranno; demorou-se a proteco, e Arthur, que apenas fra
companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigao legal ou
moral, s porque ella no tivesse de soffrer mais alguns dias, alcanou
do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro
d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que
era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...

-- grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas,
filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu
amor... Meu primo j sabe d'esse facto?

--No sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe
occultasse.

--Ento, Maria, sou eu que te digo, que pdes ter esperana de casar com
Arthur. Teu pae  um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raa, bem
sei; mas  tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as
aces que ennobrecem quem as pratica.

--No podmos contar com este segredo, minha querida me, porque jurei a
Arthur que o no revelaria, e no sei faltar aos meus juramentos.

--Mau  isso: no entanto, confiemos em Deus.

--Agora, minha boa me, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento,
no menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: 
a gratido pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta
a chamar o homem que eu amo, por vr, talvez, na sua vinda aqui a minha
salvao, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as
terriveis consequencias do seu ciume,-- a mais irrefragavel prova de
uma verdadeira dedicao... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me
o corao com uma violencia desusada, e presinto grande desgraa...
Vamos j ao quarto da Anna...

--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos l, filha, e socega,
que Deus tudo far por melhor.

Quando a me e a filha entraram no quarto mortuario, estava l o cadaver
s com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fra procurar o
medico da localidade, ainda na vaga esperana de salvar a desditosa
esposa.

As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um
pesadlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D.
Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o
com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mos
um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver,
pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bcca, tudo feito como em
delirio, levantou lentamente a cabea, olhou para as mos, abriu aquella
que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quda natural d'elle com
a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo,
apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um
tremor violento se apoderou d'ella...

D. Isabel, conservara-se immovel, como se fra uma estatua, olhando,
simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a
filha.

Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria
da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.

O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mo
o papel, ao que ella resistiu, com a reaco dos dementes contrariados,
procurando em seguida lr o seu contedo. Quando, aps uma demorada
leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou
os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada
pela dr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado
amante!

Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vr-se; at
que, tomando uma deliberao repentina, curvou outra vez a cabea, e
disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:

--Assassinaram-te por minha causa, irm!... O teu assassino, o monstro
que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu
vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo,
at ao seu ultimo spro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...

Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o
limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mos de sua me, sairam
ambas repentinamente.

Tiveram apenas tempo de transpr os umbraes da porta d'aquelle recinto,
quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder,
se o estado em que fugiam lhes podsse deixar ouvil-o.

Aquelle grito fra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o
cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illuso, estavam
j acompanhados do padre Alvaro e do medico.




II

MYSTERIO


      Os conegos da s de Evora, conduziram, sem pompa,  igreja de S.
      Domingos, entoando as oraes dos finados, o cadaver truncado do
      duque de Bragana.

                                               (CHRONICA DO SECULO XV.)



Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham
ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da
infeliz D. Anna, que fra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e
os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento,
e a fatal consequencia d'elle, que fra a immediata loucura do
_extremoso_ marido.

Para que esta mentira fosse a verso publica da repentina morte de uma
das nossas heroinas, fra preciso que o padre Alvaro empregasse com D.
Maria da Gloria e sua me, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para
as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a aco da
justia, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a
todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo
Sebastio da Mesquita.

Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de
tudo remediar, e assim o fez.

O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este
viesse pactuar a util e generosa mentira, , por emquanto, vedado aos
leitores.

Houve desde logo todo o cuidado de no deixar penetrar pessoa alguma no
quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime.
Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixo
fechado,  capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposio
costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixra disposta
antecipadamente a condio de no ser visto do publico o seu cadaver, e
de se evitarem, no enterro, todas as pompas.

At ao momento do caixo descer ao jazigo de familia, foi constantemente
guardado por um dos romeiros.

Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das
consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas
palavras persuasivas, e a fora de seus concludentes raciocinios, deram
s fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza
a encobrir o crime.

D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingana,
que o padre rebateu com evangelicas razes: foi um combate de palavras,
entre dous adversarios valentes e convictos, que s teve em resultado
firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma
a gratido, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria
vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa
fra victima; o bom Alvaro queria o perdo do criminoso, e pedia-o, a
exemplo do que o Christo implorra para os seus matadores.

No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local
d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se  filha; o
padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve fora para
concentrar a sua clera.

Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:

--V reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dar
infallivelmente a victoria...  um segredo que s direi a meu filho, por
que vae commandar a emboscada...  verdade... pea a meu filho que me
no bata... pede?... Eu sou to amigo d'elle... Coitadinho!... est
doido!... diz que lhe matei a me, e fustiga-me sem piedade!... Pea-lhe
muito, sim?... V... v, que eu espero a resposta no quartel general...

E sahiu com o mesmo vagar com que entrra, deixando as mulheres
estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.

--Este homem est effectivamente louco?!...

--Est, sim, snr.^a D. Maria da Gloria...

--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o
fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...

--No, minha senhora, era essa uma calmnia desnecessaria, e pouco
digna. O infeliz perdeu a razo, logo em seguida ao crime. Antes da sua
vingana, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...

-- preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para
conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado...
Quero vingar a minha querida Anna...

--Desconheo-a, snr.^a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingana quer V.
Exc.^a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...

--O snr. padre Alvaro no sabe o que  o corao da mulher _de raa_
quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo quelle malvado,
se poder conseguir fazel-o recuperar a razo, a mim propria causaria
terror, no me dominando a ideia de vingana...

--E no receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.^mo
pae?...

--Socegue, que a dissimulao  a mais forte defeza das mulheres.

--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu no deves querer o
que Deus no quer...

--Perdo, minha santa me.....Se no deseja vr sua filha morta pela
dr, e pela saudade, deixe-a dar largas  sua gratido...

Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava quelle formoso e
triste domicilio, o velho fidalgo Sebastio da Mesquita, j sabedor pela
voz publica, que se antecipra  parte dada pela familia, da morte de D.
Anna e da loucura de Leopoldo.




III

BRIOS DE RAA


      Se de imitar meu nome te gloreias,
                As faanhas me imita,
      Ou na Patria Nao, ou nas alheias,
                O meu valor te incita:
      Sgue os meus passos, segue a meu exemplo,
      Se morar qures, n'este honrado templo.

                              (Filinto Elysio.)


Decorreu um mez, aps a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo.

Sebastio da Mesquita, j bastante alquebrado, e mal convalescido,
cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a
loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava srios
cuidados ao seu assistente. Mais do que  sciencia, aos desvelos de sua
esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites  cabeceira do
enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia.

D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava
fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que
visitaram seu pae, e ouvira d'elles opinies de que os muitos cuidados e
carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impresses
violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razo.

Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava
com Leopoldo, diria que, a no ser uma sua extremosa amante, era uma
filha dedicada ao triste dementado. E conseguira j muito: Leopoldo
tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil
enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos
curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de
filha, em altos gritos, e at procurada pelo infeliz, com a pertinacia
da loucura.

Sebastio da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre
Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de
vida; conversao que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o
predispozra para este dialogo:

--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram
fazer-me esperar merc da Providencia para os meus rros, consinta-me
que lhe falle do nosso Arthur...

--V. exc.^a assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa m do
seu afilhado?...

--Sou eu que peo agora resignao e coragem, quelle que ha pouco me
fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho
soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dres alheias; mas
tambem sei que o padre Alvaro  um martyr a quem Deus concedeu foras
superiores ao commum dos homens...

--Acabe, senhor, se no quer vr-me morrer de impaciencia!... Que
desgraa psa sobre meu filho?!...

--Pde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia
seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimares,
uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado
n'um recontro com as tropas da rainha...

Um grito de suprema angstia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo,
vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!

Deus por certo se amerciou com a mgua de aquelle pae, porque logo
deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur
Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu
poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera.

--Obrigado, minha querida filha! O cu lhe compensar o bem que fez a
este peccador... No se pde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo
eram ficticias as foras que me deu o desespero, e eu no chegaria ao
Porto com vida... no veria ainda uma vez o filho do... Perde-me v.
exc.^a esta revelao do meu criminoso passado...

--J sabia o que me diz... adivinhou-o o meu corao...

-- magnanimo o seu corao, minha senhora, e receio que d'essa extrema
bondade lhe resultem srios dissabres... Arthur no  nobre, snr.^a D.
Maria, nem sequer  um filho legal!... V. exc.^a fez mal em dar entrada
ao sentimento que nutre por elle...

--Seu filho possue a mais verdadeira e slida das nobrezas--a da alma--e
eu amo-o!...

--E seu pae, minha senhora?!... No sabe V. Exc.^a quanto elle 
orgulhoso da sua raa?!...

--Diligenciarei convencel-o e, se no o conseguir...

--Por Deus, senhora D. Maria, no pense em desobedecer a seu illustre
pae!... Desgraados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar
pelas paixes! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... No queira
augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu
filho!... De joelhos lhe peo que me jure, que nunca proceder de
encontro  vontade paterna...

--Quer, ento, a minha morte?...

--Quero a sua salvao, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento
de um dever sagrado, que pde at tornar respeitavel o seu amor por meu
filho. Se V. Exc.^a soffresse a maldio paterna, no haveria posio
que lhe dsse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice
aquelle que ama... J no quero que attenda a este velho, que a implora,
e que dentro em pouco ser pasto dos vermes...

--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente
e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...

--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus 
justo... Deixe-me pedir-lhe perdo de ter estranhado a sua dureza, para
com o desgraado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu
criminoso proceder e os motivos de gratido que levavam V. Exc.^a 
vingana... Ainda assim, peo-lhe que o deixe entregue ao castigo
providencial que o pune...

--A esse respeito,  inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais
cruel, quanto mais contrariado fr o meu affecto por Arthur... Vae de
certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias
do doente... Concede-me este pedido?

--Cumprirei essa obrigao, minha senhora.

Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever,
foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra
n'estes termos:

-- tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te
dar a minha opinio sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a
levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais
tranquillo possivel...

--O meu bom pae, e senhor, est livre de perigo, e ha de viver ainda
muitos annos, para a nossa felicidade:

-- para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e
despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida
sirva de exemplo  tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus
erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade srias ligaes,
que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, j depois de
casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na
companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa
casa, fizeram-me travar relaes com o pae, o melhor jurisconsulto que
ento existia em Penafiel. Abusei da confiana que me deram, para me
insinuar no animo da gentil e innocente criana, que em breve sentiu por
mim um d'esses affectos, que so a felicidade ou a completa desgraa dos
que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a...
amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a
infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas j no era tempo!... Um
dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez
encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a
deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braos duas gmeas
recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha
criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas
Rosa e Anna...

--Minhas irms!!...

--Sim, tuas irms... uma das quaes est morta, e a outra... perdida!...

--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa est perdida?!... Perdida,
como?!...

--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e
dos seus modos inteiramente oppostos  indole viril e folgas que sempre
lhe conheci. Antes da minha partida para Guimares, procurei-a em casa
dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel
ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianas
encontraram carinhosas mes, em duas das minhas caseiras, cujos maridos
tiveram a bondade de consentir na alimentao de seus verdadeiros filhos
a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas
por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoao... Foi
assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo,
que eram gmeas, e que eu era seu pae...

--E   simples _ausencia_ de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama
_perdio_?!...

--Encontrei-a em Guimares, entregue a um homem desconhecido, talvez o
seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios
da minha raa, fizeram com que mais uma vez esmagasse o corao; mas
tive foras para a desprezar publicamente... J vs, que est perdida, e
bem perdida!...

E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo  narrao do velho
fidalgo.

D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas no vertia uma s lagrima.
Tinham sido to violentos, e seguidos, os choques que soffrra, havia
n'aquella fidalga indole tamanha reaco contra a m sorte, que a
donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as
dres, e concentrava todas as suas foras para a lucta.

--Minha irm no podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem,
pisando aos ps a sua dignidade... V. Exc.^a, meu respeitavel pae,
deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o
mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastio da Mesquita, no
sobrevivera uma hora  sua deshonra...

--Como tu s boa, minha querida Maria!...

--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiana, vr um dia
resurgir minha irm Rosa, to digna como eu da sua beno, e do seu
affecto... Agora, se V. Exc.^a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o
no se poder legitimar o nascimento de minhas irms, pelo enlace de V.
Exc.^a com a senhora que foi me d'ellas...

--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha
querida filha... Peo-te que continues a escutar-me com a maior
atteno, porque  de todo o melindre o que vou dizer-te... Para ns, os
homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa
gloriosa origem, a nobreza no  o echo de pomposos nomes, nem o
apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos:  uma
questo de _raa_. O rei pde fazer nobres; mas os fidalgos s os faz a
_casta_... No ha memoria de existir na minha familia uma alliana
inconveniente... Gira em nossas veias um sangue to puro, como possuira
o primeiro fidalgo d'esta raa:  uma herana, que s pde deixar de
transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...

--Meu Deus! que pesada herana!...

--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive
de sacrificar-lhe o corao... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes,
que me fariam crar de pejo... Basta saberes, que no obstante a
existencia de ligaes graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares
minha prima e tua santa me... Cumpri o legado da minha casta  custa de
permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas
irms!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica
representante do meu nome, no um sacrificio igual ao meu, porque de
certo tens livre o corao, mas sim a tua palavra de receberes por
esposo o distincto fidalgo que te escolhi...

-- impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho j o corao cheio de
affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...

--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o
ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim
escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poder
combinar-se, sendo o teu preferido, como  de crer, um fidalgo de
verdadeira raa...

Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do
velho fidalgo, entrou sua me no quarto, acompanhada por Joo de
Lencastre, e foi a bondosa _fidalga das chaves_ que respondeu ao marido:

--No sei a que raa pertence o homem que nossa filha ama, meu presado
primo e senhor, mas conheo-lhe as aces, e posso affianar-lhe sob a
minha palavra de _verdadeira fidalga_, que ninguem as tem mais
illustres... Peo ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter
escutado a sua conversao com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que
se havia de entre ambos passar,  certo; mas tinha maternaes razes,
para no deixar s no campo esta sensivel criana...

--Ento, pelo que escuto, era uma conspirao!... Entrou tambem n'ella o
senhor meu primo Joo de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de
fazer pagar caro o segredinho... Vamos l a saber o nome do feiticeiro,
que assim me roubou a melhor parte do corao de minha filha, e que teve
artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha
esse nome magico...

--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...

--O meu afilhado?!!... Deus no quiz que V. Exc.^a, snr.^a D. Maria da
Gloria, calcasse aos ps as venerandas cinzas de seus avs, e matasse
seu pae j proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, no pde ser...
_seu marido_, porque... morreu!...

--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viver na minha
alma!... Foi gravemente ferido, mas est livre de perigo... Ha-de viver
longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma
alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as
infelicidades que talvez esperem a minha raa, conservando-se
constantemente  altura dos seus nobilissimos sentimentos...
Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais
insignificante gesto, que v. exc.^a no podesse presencear... Amei-o, e
hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um
nome que deve passar _immaculado_  posteridade, continuando em mim uma
infinda srie de aristocraticas allianas!... Seja!!... V. exc.^a que
diz de um Lencastre para meu esposo?...

--So de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...

--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha
herana, a escolha agora  minha... Findo o lucto pela morte de minha
irm Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...

Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este
inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a
donzella cheia de magestade.




IV

VISO


      Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no corao de
      repente, sem saber por qu nem d'onde vem...

      Tem sempre f em Deus, que hade querer o que fr melhor para ns.

      E  trovoada isto, que se escurece tudo?... No, so as sombras da
      Eternidade que vem sobre mim.

            (VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT--FRAGMENTO DE UM ROMANCE INEDITO.)


Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria,
veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma
invencivel fora de pasmosa vontade.

Sebastio da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal
proposito, no ficra tranquillo, porque lhe era antipathico o genro;
mas o seu orgulho de raa podia mais n'elle do que todos os bons
sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de no
retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio.

D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passra, esperava os
acontecimentos com a confiana das almas puras.

Joo de Lencastre, ficra engolfado nos seus pensamentos, e s usou da
palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que
lhe fez Sebastio da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos,
dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra.

D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficra toda entregue ao
tractamento do demente.

Ao dar meia noite do quarto dia, posterior quelle em que a fidalga
donzella to inesperadamente desenlara o temivel n, que seu pae lhe
lanra ao collo, gemia Sebastio da Mesquita no seu leito as dres de
sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via
as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do
meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassido,
pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de
um nome que podessem usar sem pejo, que elle no podia dar-lhes; e de um
futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que j no podia ser
o d'ellas... O mais terrivel da viso, era o espectro da mulher de
Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua
mocidade, criminando-o pela forada ligao a que elle a levra, e que
fra causa da morte prematura que tivra... O velho fidalgo, implorava o
perdo de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o
completo aniquilamento da sua raa... Queria que seu pae dsse por
escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com
Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela
voz da eternidade:

Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e  qual nem foi dado
depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das
cruciantes dres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma
familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso
atirou ao ldo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que
fizestes morrer na flr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se
amerceie da tua alma,--escreve: _Dou voluntariamente o meu
consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o
meu afilhado Arthur Soares. s portas da eternidade, prestes a
comparecer perante o pae commum, reconheo que s  verdadeiramente
nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==No
faas a outrem o que no queres para ti, perda as injurias, e ama o teu
proximo como a ti mesmo.==Sebastio da Mesquita._

E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter j foras para
affastar de si a vingadora viso, que o aterrava, sem poder distinguir
se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia s ordens
da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava...............
.......................................................................

Succedeu-se  viso um quebrantamento, que teve o velho fidalgo
prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.

Ao abrir os olhos, viu Sebastio da Mesquita junto da cabeceira a
sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o
acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um
sonho fra, ou se tudo se passra na realidade. A bondosa senhora,
aproveitou aquellas disposies do marido, para advogar a causa da
filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas cres; revelou o que elle
praticra em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de
guardar segredo, dado por D. Maria, a no obrigava a ella; descreveu com
enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o
sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente,
sublime de eloquencia maternal.

No fim das suas expanses, olhou D. Isabel para o marido, a vr se lhe
lia nos olhos o assentimento, que os labios no tinham proferido. No
conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastio da Mesquita
estavam completamente fechados... O remorso fra um poderoso auxiliar da
enfermidade...

quella hora, j o velho fidalgo sabia se l nas alturas Deus permitte a
distinco de _humanas raas_...




V

TRES SOLDADOS POR AMOR


      Tomai pensar mais solido e sizudo:
      O caminho segui que a honra indica;
      Trabalhai pela Patria, a Patria  tudo.

        (POESIAS DE ANTONIO JOAQUIM DE MESQUITA E MELLO).


Entremos na residencia do reitor de Santo Adrio de Penafiel.

Estamos na sala do oratorio, onde j vimos orar D. Isabel e o velho
parocho, por occasio dos _raptos_, e do incendio, da primeira parte
d'esta obra.

Ajoelhado aos ps de Christo, est um vulto de mulher, nova e bella
ainda apesar do seu definhamento.

Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas
oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de
frente, esto a um canto Rosa e Joo Vidal ou de Lencastre.

A um lado, escrevendo, est o bondoso reitor.

Trajam todos rigoroso lucto.

Ouviremos o que dizem Joo e Rosa:

--Quando seccaro as lagrimas nos seus olhos, snr.^a D. Rosa?...

--No ha muito que chro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou
muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser...
Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os
homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era
filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera
considerando-me perdida...  de mais, bem o conhece!...

--No posso asseverar-lhe qual foi a convico com que seu exc.^mo pae
falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria
muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu
nome, que v. exc.^a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu
juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado
poucos momentos depois de sua exc.^ma irm D. Maria lhe ter dicto, por
uma sublime inspirao, que a snr.^a D. Rosa havia de resurgir pura de
toda a mcula,--devia ser bastante para o convencer de que fra
precipitado em julgar por apparencias. No posso adiantar-lhe mais,
porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive l, como
sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a
Deus o perdo dos que a sacrificaram, e desconheceram suas
virtudes;--mas no fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era
preciso... Poucas horas depois, j seu exc.^mo pae no era d'este mundo!

--Querido pae, e boa irm!...  preciso que terminado o lucto, meu bom
amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.

--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.^a foi
rigorosamente executado. Admiro-a, snr.^a D. Rosa!... Como Deus lhe d
foras para esmagar o corao!...

--No me julgue de leve, meu amigo, que pde enganar-se nos seus juizos
a meu respeito.  muitas vezes insondavel o corao da mulher... Eu
mesma no saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do
meu actual proceder...

--Quer a desgraa que os eu conhea, senhora, e que os sinta
inabalaveis... So rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor
aos seus brios,  dedicao e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.^a 
das que pde praticar todos os extraordinarios...

--E no tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada
estima... Veja que apoucado poder  o d'esta _extraordinaria_ mulher...

--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente,
at chegar ao cumulo da sua ambio, ou succumbir sem vr realisadas as
suas loucas esperanas... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, 
certo; deveria contentar-me, por que fra alcanar j muito mais do que
merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e no posso
ficar parado... Antes morrer com a esperana no pensamento, do que
arrastar a vida sem essa dce consolao dos que padecem...

--E como lhe ha de conceder _esperanas_, a mulher que o senhor salvou
da _perdio_, onde ella se foi voluntariamente lanar por amor a
_outro_ homem?!...

--No lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e
dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos
juntos, de lhe fazer a mais remota alluso a um seu passo impensado, que
nem erro se pde chamar?...

--E julga que me satisfao com to pouco?!... Avalia-me com a capacidade
de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como  injusto, Joo!...
Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto
ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria
ento sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, no
deveria occultal-o a mim propria, para no ter de crar da minha
versatilidade?...

--Sou, pois, infallivelmente condemnado, no  verdade?!... Um pedido
ento, senhora, e ser o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nao... V.
Exc.^a j no carece dos meus servios... tem a companhia d'aquella
martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancio... Vou para junto do meu
camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que
darei por elle a vida... Consente, no  assim?... No me responde?!...
Chora?!... Compadea-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...

Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lr
a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:


    _Exc.^ma Snr.^a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus_:

No ha flres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que
estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito aoitadas e
pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o
furaco da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flr
da Gloria, est sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae
celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero
e creio, a christ resignao fr uma das muitas virtudes de V. Exc.^a,
no vir longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos
soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro
amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da
eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos
um pouco de ns outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.

Venho da cabeceira do leito de Arthur, que est livre de todo o perigo:
mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecer de novo. Foram
muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios
permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur.
Perde a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais
formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como
indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle
aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da
bocca o nome de V. Exc.^a, proferido com igual respeito quelle com que
por vezes invocra o da sua querida me. Quizera responder-lhe com
poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do
que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem,
que, apesar de criminoso,  pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria
da Gloria?!... Arthur est preparado para todos os acontecimentos...
Resignar-se-ha com tudo, afra a ideia de que V. Exc.^a possa ser menos
feliz do que merece.

Peo a transmisso dos meus profundissimos respeitos  exc.^ma snr.^a
D. Isabel,  qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde
me ser mais facil a realisao do desejo de as vr todos os dias, e
acompanhal-as nas oraes pelo eterno descano do nosso chorado esposo,
pae e amigo.

                                                          _Padre Alvaro._


N'este mesmo dia, existiam s, alm dos serventes, duas pessoas na
residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto
o padre escrevera e Joo e Rosa conversavam.

Joo de Lencastre, fra o primeiro a retirar-se, com a morte no corao,
porque de todo lhe fugira a esperana de ser correspondido no seu
immenso amor.

Rosa, que o no prevenira da sua resoluo, seguira-o pouco depois.

Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a
companhia de que era capito Arthur Soares, contava mais dous
voluntarios, que eram o tenente Joo de Lencastre, e um elegante
sargento, que dizia chamar-se Paulo Virginio.

Arthur Soares, estava j completamente restabelecido.




VI

DENODO FEMININO


      Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braos a irm de
      Pelagio, e foram reclinl-a sobre um monticulo cuberto de relva e
      musgos.....

      O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que
      violentamente a agitava.

                                                (_A. Herculano_--EURICO.)


A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. No existia
em Portugal uma alda livre dos vexames da revoluo. Os exercitos
belligerantes entretinham-se em operaes de pouca importancia, em
conservarem para os seus governos os territorios occupados pela fora, e
no chegavam a travar uma lucta decisiva.

Um estado de coisas assim violento, no podia prolongar-se sem grave
prejuiso da nossa nacionalidade.

O governo de Lisboa, fundado nas acclamaes feitas a favor do snr. D.
Miguel de Bragana, pedira a interferencia das naes signatarias do
tractado da quadrupla alliana, por se achar em perigo a pessoa e
dynastia da rainha.

Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da
interveno estrangeira, que  sempre um desaire para as naes a ella
sujeita; mas  foroso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e
que, se no foi um bem absoluto a interferencia da Frana, Inglaterra e
Hespanha, poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os
milhares de calamidades a que a durao da guerra nos tinha entregues.

No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar
que, aps elle, a ambio do partido ante-dynastico, que se achava em
fora consideravel, dsse muito que entender aos liberaes de boa f, que
apenas pelejavam pela prtica genuina do systema constitucional, e que
amavam de toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da
snr.^a D. Maria II.

A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como
esposa e me educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela
exaltao partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus
actos politicos as constantes suggestes dos conselheiros que a
cercavam, aos quaes no se fartava de fornecer terriveis documentos para
a catechese, a imprensa licenciosa da opposio, cuja linguagem
desenvolta e ameaadora bastaria a resolver qualquer monarcha, por mais
resoluto que elle fosse, a entregar-se nos braos dos que se lhe
mostrassem dedicados e leaes.

O certo , que alguns dos officiaes superiores da junta do Porto, no
viram com mus olhos a concluso da guerra, pelo modo que ella teve
logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com
jubilo.

O batalho a que pertenciam Arthur Soares, Joo de Lencastre e o
sargento Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada
do commando do honrado e mutilado general, que servia s ordens da junta
do Porto. Succedeu haverem sido interceptados a bordo de um vaso de
guerra alguns objectos, que do estrangeiro vinham dirigidos  rainha, e
entregues quelle general, que immediatamente os enviou ao Pao por um
dos seus officiaes;[15] e foi Arthur Soares, elevado por seus servios
ao posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commisso que
desempenhou galhardamente.

A snr.^a D. Maria II, commovida por um to delicado quanto conveniente
procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstraes de
estima. No lhe fez graa nem merc rgia, porque, senhora como era de
elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, no queria de nenhuma
frma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe
era opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava
reconhecida quella fineza do bravo general, e o muito que desejava
poder em dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza
do attencioso mensageiro.

Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600
homens de ambos os lados, em quatro horas que durou o fogo, e a que poz
termo um armisticio, por uma especie de interveno do coronel Wilde,
que se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica
_Polyphemus_.

N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da
fora que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso
pela cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur
Soares, o tenente Joo de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio,
fizeram desesperados esforos por conter os soldados, e tiveram de
sustentar uma lucta desigual com a cavallaria inimiga. Na occasio em
que o peito de Joo de Lencastre ia ser varado por uma bala sahida da
pistola que lhe apontava um soldado, collocou-se de permeio o sargento
Paulo Virginio, que recebeu o ferimento destinado ao seu superior.
N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da batalha o toque de retirada,
e foi a elle que os dous officiaes deveram a conservao de suas vidas,
e o poderem soccorrer o ferido, que to denodadamente havia salvado um
d'elles.

Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob
as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella
Rosa!...

    [15] Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo.




VII

OS ESPINHOS DA FLOR


      Peo ao meu anjo da guarda,
      Se hei-de aqui ficar perdida,
      Que v levar-te por sonhos
      Esta minha despedida.

        (_V. de Castilho_--O ACALENTAR DA NETA.)


Leopoldo havia recuperado a razo, graas aos cuidados da sua gentil
enfermeira. Mal sabia o desgraado, que novo supplicio lhe destinava a
mulher que o salvra da demencia!...

Ouamol-os:

--Diga-me muitas vezes que no sonho, querida prima, e que no 
encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar
da existencia ao seu lado...

-- um facto muito real e verdadeiro, _caro primo_, que hade ter por
desenlace o nosso casamento...

--No posso crr em tamanha ventura!...

--Duvda?!... Pois no sabe, que protestei a meu pae de sustentar o
seguimento das _nobres_ allianas da minha raa?... No v como j me
abandono ao seu dominio, separada de minha me, que foi para o nosso
solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no
mundo me so caros?... Duvda?!... Alguma razo tem para duvidar, porque
no  com premios taes que se costumam castigar os assassinos...

--Tenha piedade, senhora!...

--Piedade?!... De quem, e porqu?!...

--De mim, que s fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz
n'um peito desleal, causou-me estragos, que s a prima teve o poder de
reparar... e bem conhece que no so de _assassino_ estes
soffrimentos...

--__A _ferida que fez n'um peito desleal_, diz o primo?!... Illude-se, e
 chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.^a cravou s punhaladas,
com este villo instrumento que guardei para o sangue que o tinge me
animar  vingana, o unico peito em que batia um corao que lhe era
affecto... Minha irm Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro
amor...

--No brinque, prima, que me tortura!...

--Quer as provas?... V ouvindo... Passavamos aqui uma existencia
relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu _idolatrado_
Arthur, e minha irm Anna a lamentar-se de no ser comprehendida por V.
Exc.^a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de
nosso pae, que me participava a resoluo de casar-me em Guimares...
Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de no poder empregar sequer
um raciocinio... A minha querida irm, que era o symbolo da dedicao,
imaginou conjurar a tempestade que ameaava o meu futuro, chamando aqui
o meu _muito amado_ Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal,
roubada no campo da gloria ao _meu idolo_ por um soldado do seu
commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente,
tornado ferrugem no seu punhal!...

--Misericordia, senhora, que me mata!...

--No hade morrer, _senhor meu noivo_, em quanto no tiver bem esgotado
o calix de amargura, que outros j tragaram por sua causa...

-- ento o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como  que
deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente
irm?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...

--Tambem no hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu
esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia _singular_...

--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! No me dir o logar que occupo
no seu corao?...

--O meu corao est cheio, hade estal-o sempre, do _unico_ homem que eu
amo, e do qual me separa a fatalidade... No hade passar um minuto da
minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e
saudosas  memoria de _Arthur Soares_, do amor da minha infancia, da
alma mais nobre que existe na terra, e que s no cu me ser concedido
unir  minha... Que importa isto ao _meu futuro esposo_, ao viuvo de
_minha irm assassinada_!...

--Cale-se, demonio!...

--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e _feliz noivo_, com a
fiel narrao do estado da minha alma, que todos os dias voar em busca
da que lhe  igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas
particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi
elle que deu um dote  sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para
esse fim, todos os seus haveres...

--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peo-lhe
antes a morte como o supremo beneficio...

--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os
dias ao pianno durante a sua convalescena?...  uma composio minha...
Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe no cantava, porque no estava ainda
em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique
sabendo que s o amor  verdadeiro poeta... Oia:

      LAGRIMAS D'ALMA

      Vida ditosa da infancia amena,
      tornada pena, que me traz delirio!...
      Meu terno amante, meu poderoso rei,
      por amor fiquei n'um atroz martyrio!...

      Ignora o mundo que cruel mysterio,
      ao cemiterio casta virgem leva!...
      Nem _Elle_ sabe quanto hei penado,
      Arthur amado, que minha alma enleva!

      Aqui defronte do feroz tyranno,
      que deshumano duas vidas sme,
      a irm eu vingo, o amor vingando,
      Arthur amando com ardor sem nome!...

      Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,
      puros anhelos, que gostosa tinha!
      Ai! que tormentos o presente encerra,
      na crua guerra da vingana minha!...

      Vida ditosa da infancia amna,
      tornada pena, que me traz delirio!...
      Meu terno amante, meu querido d'alma,
      recebe a palma d'este cru martyrio!...

O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado
executor de alta justia se compadeceria ao vl-o! E D. Maria da Gloria
estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltao, em que a mulher
_senhora_, se torna a mais temivel das fras. Havia por muito tempo
concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irm, e fra causa,
ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e
por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe
enchia o peito.

Um escudeiro veiu entregar uma carta  vingadora que, reconhecendo
n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima
alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.

O contedo na carta, que D. Maria lu em voz alta, era este:

Depois que o meu velho Alvaro lanou n'este pobre corao o desespero,
com a noticia da resoluo que v. exc.^a tomara de ser fiel  vontade de
seu exc.^mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque s
ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro
homem  o seu esposo... Mas superior  minha vontade est o dedo de um
Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me crca de espectaculos
insinuantes!... Poderei vr n'isto uma esperana?...

Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel,
deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe
interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven
sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que
era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente Joo de Lencastre.
No fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu
tenente, porque ambos ns tinhamos srias preoccupaes, que nos no
davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando j se
ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das
foras combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da
cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de Joo
de Lencastre. Rapido, porm, como se fra uma frecha, o intrpido
sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o
ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no
campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do
sargento: quem imagina v. exc.^a que descobrimos debaixo de um tal
disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.^ma irm!...

De certo que avalia o nosso espanto e viva sensao, ao reconhecermos a
nossa companheira de infancia, a minha quasi irm, a querida de todos
ns!...

Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.^ma irm no morreu; mas antes de
participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de
succedimentos anteriores.

A snr.^a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno
criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a
minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppr
entre mim e ella a barreira da perdio simulada, fugindo, n'este
intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimares n'uma casa
de perdio!... Foi alli surprehendida por Joo de Lencastre que, aps
porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento.
Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.^a, offereceu o seu
nome, e a sua fortuna,  snr.^a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o
melhor para o conseguimento dos seus fins; isto , para que entre mim o
v. exc.^a nunca podsse haver suspeita do amor que ella julgava
consagrar-me. Sua exc.^ma irm regeitou, e conservou-se na mesma casa,
at que Joo de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve
occasio de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe.
Desde um tal dia, que a snr.^a D. Rosa abandonou completamente o seu
arrojado e perigoso projecto, entregando-se  proteco do nobre
salvador da sua virtude.

O meu camarada, e honrado parente de v. exc.^a, ha muito tempo, como
elle me confidenciou, que dra entrada a um sentimento srio pela
senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder
de augmentar, por conhecer em sua exc.^ma irm, a par de um genio viril,
um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do
meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma
resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.

Dadas estas explicaes indispensaveis, para a boa intelligencia do
mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao
ferimento do supposto sargento.

A dr e a desesperao que se apoderaram de Joo de Lencastre ao
reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia
estar sem vida, sent-as, mas no me  dado descrevel-as. Conduzimos o
corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli
chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram
tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o
primeiro em que sua exc.^ma irm recobrou o uso da falla,
consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente
ferida. Durante o periodo de prostrao da snr.^a D. Rosa, no pude
conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um s
instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo
idiota, que muito me assustou. S deu accordo de si, quando sua exc.^ma
irm abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mo aos
labios... Ento, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa fora, e
tive de o tirar arrebatadamente de ao p do leito, para evitar damno 
doente.

Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho
presenceado: a snr.^a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou
n'estes termos: No podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a
sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da
minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais
incomprehensivel que seja a minha confisso... Considerei-me presa de um
amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um
sublime affecto por minha irm... Quiz pr entre ns o impossivel, para
conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha
temeridade, por uma affeio das que raramente os homens sabem ter...
Esta dedicao, a que no tinha o menor direito, fez-me descobrir um
novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como
fazer semelhante confisso?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo
a conservao da minha honra, na inteno de lhe dar a vida, como lhe
havia dado o corao... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crs
agora em mim, Lencastre?...

O meu camarada, snr.^a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que
pde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.^a...

Tenho dentro em pouco de ser padrinho da unio d'aquellas almas
angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura
dos nossos amigos; mas que dres no hei-de ter ao lembrar-me que igual
ceremonia pde qualquer dia unir eternamente a snr.^a D. Maria da Gloria
a...

Cahe a penna da mo ao fiel servo de v. exc.^a

                                                                _Arthur._


A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque
electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes
ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...

Quando o desgraado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se
fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e
uma senhora com o rosto coberto por expsso vu.

O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:

--Nunca se deve descrr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na
sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado,
posso dar-lhe uma esperana de que ser perdoado por Deus... O seu
crime, no teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua
esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe
perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmo e a senhora D.
Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta
localidade, que logo asseverou no ser mortal o ferimento, combinamos
deixal-a passar por morta, na caridosa inteno de pouparmos toda a
familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos
de que v. exc.^a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um
cadaver, e conduzimos secretamente a snr.^a D. Anna  habitao do
medico, onde se conservou at se achar completamente curada, passando
depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...

Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que
elle adivinhara ser a sua, mas no pde conseguil-o, porque a violencia
d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braos do bondoso padre.

As duas irms, ternamente abraadas, confundiam as lagrimas e os
soluos.




VIII

A CONVENO DE GRAMIDO


      O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era
      impossivel combater; cedemos  fora de tres poderosas naes.
      Perdemos tudo, mas salvamos a honra.

                                            (O n. 63 do _Espectro_)[16].


Leopoldo ficra prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e
assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.

D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a
casa materna, tivera com sua irm largas conferencias, e recebeu d'ella
um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licena para
unir-se com Arthur Soares. Este documento, fra aquelle que Sebastio da
Mesquita lhe _parecera_ ter escripto, e que effectivamente escrevera,
durante a _viso_ de que tracta o capitulo assim chamado. Alcanara-o D.
Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um
plano concebido por sua irm Rosa, e auxiliado por Joo de Lencastre.
Levava de preveno o necessario para aquelle escripto, que humildemente
rogra a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela
appario da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que
era rogativa, escreveu com mo trmula.

Arthur Soares, e os noivos Joo de Lencastre e Rosa, estavam na cidade
do Porto, onde a revoluo agonisava.

Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo
supremo do reino a Gramido, onde tivra logar a conveno, que poz termo
 guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:

1. O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeao,
incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno,  garantido pelos
governos alliados.

2. As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparo desde
o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os
fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade
no estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser
alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte
guarnio das foras alliadas em quanto estas se conservarem em
Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz ser occupado por tropas
inglezas, e no Douro estacionaro alguns vasos de guerra das potencias
alliadas.

3. A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto ser
marcada pelas potencias alliadas.

4. A propriedade e segurana dos habitantes do Porto, e de todos os
portuguezes em geral, ficam confiados  honra, proteco e garantia das
potencias alliadas.

5. As foras do exercito de sua magestade catholica recebero as armas
dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem  junta, entregando-se
guia ou passaporte gratuito s pessoas que tiverem de sahir do Porto
para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha
que tiverem completado o tempo de servio, e aos quaes se alistaram
durante esta lucta para servirem s at  sua concluso.

6. O exercito da junta ser tractado com todas as honras de guerra,
sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade
sua.

7. Conceder-se-ho passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do
reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.

8. As tres potencias alliadas empregaro os seus esforos para com o
governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condio dos
officiaes do antigo exercito realista.

Esta conveno foi publicada por um decreto e proclamao da junta, que
termina assim:

A junta felicitando-se a si propria, e  nao, por vr terminada uma
to longa, e to dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que
seguisse a sua bandeira conserve a lembrana de qualquer aggravo que,
durante a mesma guerra, possa ter recebido.

A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis
tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nao e de
sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimao do povo
portuguez e do mundo civilisado.

A junta considera terminada a sua misso de uma maneira nobre, e
honrosa. A junta vai dissolver-se.

Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam
comsigo a convico de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a
gloria do povo portuguez.

No querem maior galardo do que a lisongeira recordao de que por
tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso,
mais heroico, e mais nobre da terra.

E faro sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a
rainha, pela sincera reconciliao de seus subditos, e pela liberdade, e
felicidade do povo portuguez.

Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.

Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel,
escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:

Acabou a guerra e com ella a esperana d'uma morte gloriosa para mim.
Recolho-me  residencia do meu santo velho, onde tudo me recordar o
tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.^a... Qual ser
o meu futuro?!...

Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir  snr.^a D. Isabel e a v.
exc.^a um aposento no seu palacio.

                                                                 _Arthur_.

Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares
recebera outra d'este theor:

Venha quanto antes abraar a sua esposa. As barreiras que se oppunham 
nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!

                                                                  _Maria_.

Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver
sinceramente amado.

    [16] Referimo-nos por vezes ao _Espectro_, no s por ter sido o
    papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e
    principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro
    jornalista, a honra, e a justia, que se lhe devem. As ms paixes
    teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que
    s fra desharmonia politica; mas a verdade --como j provamos--que
    o _Espectro_ foi o _unico_ periodico da opposio d'aquelle tempo,
    que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta,
    tributando o respeito devido  _pessoa_ e _virtudes_ da snr.^a D.
    Maria II.




IX

BRIOS DE PLEBEU


      Uns homens ha, que, na paixo ardente,
                            Immolam tudo seu,
      Menos a propria estima; e, felizmente,
                            D'esses homens sou eu:
      Sou, que de tudo o que no mundo przo,
      Przo mais no mer'cer o meu desprezo.

                       [Joo de Lemos--CANCIONEIRO]


Uma d'estas revolues moraes, que as grandes crises produzem no espirito
humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas
almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama
imaginaes prodigas, porque lhe  vedado o entendel-as. Amara D. Maria da
Gloria, que era rica e nobre, como se ella fra a mais desprotegida
camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moa, e nem
por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. To
prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de
uma declarao: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo
na alma, para no se exporem aos falsos juizos  do vulgo, nem serem menos
presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma
semelhante  de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor,
seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitao.

Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par
do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou
Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores.
Os acontecimentos, porm, precipitaram-se com tal velocidade, que, at ao
momento do desenlace, no teve o nosso heroe o tempo material preciso para
cogitar n'um procedimento digno de si.

Agora, que s da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur
hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de
homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria no podia elle
entrar com uma poro, se no igual, aproximada das conveniencias sociaes
que ia receber. Se ao menos podsse apresentar as dragonas e condecoraes
ganhas no campo da batalha, seria j alguma coisa, e fra provavel que
acabasse a sua hesitao; mas o governo interino que lh'as concedera
deixara de existir, e o de sua magestade no lh'as garantia.

Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem
longe do bafo empestado das paixes mesquinhas e torpes, que so o apanagio
de villes interesses, trazia-lhe a par a recordao dos tempos em que lhe
soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu
affecto pela esperana de se tornar distincto no campo  da honra, e poder
assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer
tomava propores assustadoras, que ameaavam queimar-lhe ao fogo do
corao os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.

Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da
Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos
demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na
residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e
filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os
communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem
commum.

As foras physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso
debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste
pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e
chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento
de Arthur.

D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente s pessoas do seu sexo,
educao e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por
um fidalgo tacto, que s ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as
conversaes do terreno em que poderiam declinar para expanses perigosas,
esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio
de querer accelerar o desfecho que to grato era ao seu corao.

Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenes
do seu mundo, D. Maria no largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas
crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moa a
coragem de mostrar-se risonha na presena do seu idolo, para dar, s
occultas, largas ao pranto, e  dr que a definhava.

Os desvlos do pae e da amante, auxiliados pela constituio vigorosa de
Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. J convalescente, tomou um dia
as mos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com
lagrimas na voz, e nos olhos:

--Porque me no deixaram morrer?!... Acabava tudo, e no os faria soffrer
mais...

--Quer-me parecer, Arthur, que vo muito longe os teus brios, e que talvez
degenerem em orgulho condemnavel... Ambos ns lmos no teu intimo; eu,
porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda alm do
que  permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E no ser a
manifestao de um tal desejo grave offensa  Divina Providencia, que to
prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou querers tu tornar-me mais
pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas
infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e
que tu, deixando a vida, fugias  possivel felicidade n'este mundo, em
quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro
na morte o supremo bem!...

--Como so sevras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o
corao, que os seus sentimentos so os meus, e que, no meu caso, seria em
tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convico, est
no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples
enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante...  Porque me
no ordena o que devo fazer?...

--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade
de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que no pde ainda
entrar em conversaes animadas... Sim, agora o mais bonito  isso!...
Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e no tenham pena de mim, que os
heide aturar doentinhos!...

--s o melhor dos anjos, minha querida Maria!...

--Nem sou _anjo_, nem sou ainda _sua_, seu mau... Isso hade acontecer,
quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr.
Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de
attenes e de respeitos, podendo dispensar proteco, e no tendo j que
receiar dos maus juizos que o mundo frma quando v ligaes entre duas
pessoas que no pesam do mesmo modo na balana das conveniencias... Eu era
sempre a mesma rapariga alde, que _V. Exc.^a se dignava elevar_ at  sua
altura, e que caminhava para a capella to contente por o meu esposo ser um
_potentado_, como o estaria se elle fosse um simples _operario_...

--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...

--Est fixada, j lhe disse... Esperemos a realisao do meu sonho, que me
diz o corao, que no havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem
bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma
palavra, que te faz mal fallar...




X

VIAGEM DA RAINHA


      Foi ento que se apossou da cora.

                    (A. HERCULANO--EURICO.)


      Crer e amar-- a unica religio verdadeira; crer e amar--a unica
      poesia verdadeira: uma no est sem a outra.

                                        (V. DE ALMEIDA GARRETT--HELENA.)


A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a disseno armada em
vinganas mesquinhas, em baixos enrdos e ambiciosas abjeces. O povo,
esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos
bandos politicos, tinha perdido as crenas, e o amor ao systema liberal: o
throno,  fora de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi
ento que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que
pozeram em pratica a constituio.

Ferindo no mago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os
odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do
estado;  pagando em dia aos empregados da nao; garantindo as patentes aos
officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldes politicos; dotando
o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos
empregos aos homens de todas as cres politicas; segurando os direitos
individuaes; e pondo, finalmente, em aco todo o machinismo de uma
verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado
_regenerador_, no desmentiu este nome redemptivo.[17]

No contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos,
aquelles vultos politicos do memoravel ministerio _regenerador_, quizeram
dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da
familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o
alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a
senhora D. Maria II, e a sua dynastia.

Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua
prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte
distincta que  tomou no lucto, o partido que era affeioado ao infeliz
principe proscripto.[18]

Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D.
Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.

.........................................................................

Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e
Abendanhos. A respeitavel snr.^a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus
vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe
pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha
fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D.
Maria da Gloria acompanhava a me nos precisos trabalhos com vivo
contentamento. D. Rosa deixara de ter questes com o marido,--para
resolverem qual d'elles devia  ter mais tempo no collo um robusto rapaz,
fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur
Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio.
Joo de Lencastre fra encarregado por D. Maria de uma commisso
diplomatica: era foroso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, 
rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel  exigencia da sua Maria
e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer
 vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porm, no era to
innocente como parecia. Joo de Lencastre tornara-se fallador, como todas
as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fra o official
escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram
destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta
revelao, fez conceber um plano  fidalga moa, que devia tornar realidade
o sonho precursor do seu casamento.

Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma frma que em todo o
seu transito, com as mais festivas demonstraes de leal affecto da parte
do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes
viajantes, e os cobria de flres.

N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem est
sujeito o primeiro magistrado de uma nao, conseguiu D. Maria da Gloria
fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua
magestade, que logo o reconheceu:

--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o _tempo mais feliz_, a que
me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e attencioso
com que se houve n'uma commisso delicada. Dizem que os reis
constitucionaes no podem fazer mercs a seu bel-prazer; mas se isso 
regra, soffre excepo quando os ministros responsaveis possuem as
qualidades d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as
honras de coronel do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence,
desde hoje, aos fidalgos da minha casa, e pde desde j assignar-se conde
de Setubal... Agora, consinta  sua rainha, que lhe manifeste a vontade de
ser testimunha e protectora do seu casamento... Sei que as formalidades
indispensaveis ha muito esperam por a sua resoluo, est a dous passos a
capella do palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mr...

--Senhora! Toda a minha vida ser dedicada a vossa magestade e  sua real
familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigao de
darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada
rainha a senhora D. Maria II!

--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as _Marias_ so dignas de
um leal affecto... Levante-se condessa!  nos meus braos que eu costumo
apertar as pessoas que tem a sua alma... Finda a ceremonia do casamento,
quiz a rainha vr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram chamar 
residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua magestade a
palavra n'estes termos:

--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. No
lhe fao mercs porque sei que as regeitaria com evangelica abnegao; mas
peo-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar
o meu esmoller-mr... Peo-lhe ainda algumas oraes para esta mulher
corada, que dentro em pouco tempo ha-de ser p... Os medicos
desenganaram-me... Queriam _remediar o mal infallivel_ no sei com que
_medicinas preventivas_, que eu recusei formalmente, porque no tremo de
morrer no meu officio de mulher, que  to nobre, pelo menos, como o de
rainha...

--De que preces pde carecer uma santa como vossa magestade?!...

--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca muitas
vezes...

--Resarei, real senhora! e ser meu o proveito das oraes, como ha-de ser
de vossa magestade o reino do cu!...


    [17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos
    a realisao de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condies
    para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito
    contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava
    para a consolidao da divida fluctuante!  geral o contentamento,
    esperanosa, e proxima, a organisao das nossas finanas, e notavel o
    credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolas da Europa.
    Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, esto succedendo
    sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que
    louvamos.

    [18] O snr. Joo de Lemos, publicou, por occasio da morte da snr.^a D.
    Maria II, a conhecida  poesia--O FUNERAL E A POMBA--da qual
    consignaremos aqui estes edificantes versos:

        Soldados, que ha vinte annos
        Com esforos sobre humanos
        Batalhaes por vossa f,
        Soldados, eia, de p!
        Respeitem-se aquellas mgoas,
        E do nosso pranto as agoas
        Lavem d'odio o corao;
        No ha odios d'este lado,
        Nem se deshonra um soldado,
        Quando abraa seu irmo.

        Ponham-se treguas  guerra,
        E ningum manche esta terra
        Ao p de funrea luz;
        Soldados, olhai a cruz!
        Demos pranto a quem pranta,
        Demos dr  dr alheia,
        Nos dois campos lucto egual!
        Nenhum, nenhum se envilece,
        Unidos na mesma prece,
        Junto  loisa sepulchral.

        Solemne melancolia,
        Seja n'hora da agonia
        Nosso tributo cortez;
        Que o tomem, que  portuguez!
        Portuguez d'aquelles peitos,
        Por tantos annos affeitos
        Na lealdade a soffrer;
        Portuguez que vem das eras,
        D'aquellas crenas sinceras
        _D'antes quebrar que torcer_.

        Que o tomem; e ns, soldados,
        Ao vl-os to consternados,
        Respeitemos-lhe a sua f;
        Amigos, eia, de p!
        Era o seu chefe, e bandeira,
        Diziam-n'a companheira
        De infortunio e proscripo;
        Comprehendemos, pois, seu grito,
        Ns, soldados do Proscripto,
        Vinte annos gemendo em vo!

        A cada um sua crena e dres,
        Cada qual estreme as cres
        Do pendo que traz por si;
        Todo branco,  o nosso aqui.
        Mas, se d'elle voz sagrada
        Nos manda, por gloria herdada,
        Ou morrer ou triumphar,
        Tambem no alto do Calvario
        Outro estandarte, um sudario,
        Manda os tristes consolar.

        Porque  de arraial opposto,
        No cra o tributo o rsto,
        A quem o toma ou quem d;
        Soldados, lucto de c!
         tributo  monarchia,
        Por dois campos n'um s dia,
        Cada qual por sua lei;
        Um faz honras  Rainha,
        Outro  Princesa, sobrinha
        D'aquelle que jurou Rei!




EPILOGO




EPILOGO


So decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da
Gloria, e estamos no dia do 4. anniversario natalicio de uma interessante
menina, que  a filha estremecida de to venturoso par.

O filho de Rosa e de Joo de Lencastre, dous annos mais velho, d-se ares
de protector da priminha, que crca de brinquedos e caricias infantis. D.
Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. Joo de
Lencastre est narrando  mulher o que presencera em casa do irmo, d'onde
recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira
Leopoldo. D. Maria e Arthur esto de mos dadas contemplando as crianas, e
trocando phrases embalsemadas de felicidade.

 de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial
da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, est
ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes  da me de Arthur, e
l esta passagem da Biblia:

Disseram-lhe seus discipulos: Se tal  a condio de um homem a respeito
de sua mulher, no convm casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos so
capazes d'esta resoluo, mas smente aquelles, a quem isto foi dado.
Porque ha uns castrados que j assim nasceram; ha outros castrados a quem
outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se
castraram por amor do Reino dos Cus. O que  capaz de comprehender isto,
comprehenda-o.

A leitura d'estas palavras, que so, para a egreja catholica, a desculpa do
padre celibatario, fez cahir o livro das mos de Alvaro, e obrigou-o a
dizer, em consternadora exclamao:

--Oh meu bom Deus! quando tero fim os meus remorsos?!... Quando poderei
deixar a vida esperanado no vosso perdo, oh Senhor Misericordioso?!...

Lanou em seguida os olhos  Biblia, que no cho ficra aberta, e passados
poucos momentos, empregados em lr o que a Providencia lhe deparou com a
queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo
as mos e os olhos ao Cu em aco de graa!... As palavras que causaram a
repentina mudana no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:

Digo-vos que assim haver maior jubilo no Cu, sobre um peccador que fizer
penitencia, que sobre noventa e nove justos, que no ho de mister
penitencia.

Entrou n'aquella occasio na egreja toda a nova familia de Arthur,
incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o
padre para a festa dos annos.

Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim,  excepo de D. Isabel.
Este local,  o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no
capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais
algumas plantaes de arvores e flores, e commodos assentos.

Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre
Alvaro no centro com as crianas sobre os joelhos; D. Maria  direita
d'elle, e junto d'esta Joo de Lencastre; e D. Rosa  esquerda, e junto
d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do cho ao collo das
criancinhas a depenicarem-lhes os dces que tinham nas mos.

As alegres expanses d'esta feliz familia, foram interrompidas pela
presena de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma
carta tarjada de preto.

Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se
resolvesse a lanar mo da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu
licena a D. Maria para abril-a, e lr o seu contedo em voz alta, o que
todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da
primeira impresso. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:


                                         _Minha boa Maria e presada irm_:

Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adorao;
nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto
para culpas que no eram tuas; nem os esforos, em fim, dos homens da
sciencia medica, poderam roubar  morte o meu desditoso Leopoldo!...
Mataram n'o  os remorsos de no ter conhecido e compensado a tempo o meu
immenso affecto!... V, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de
seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservao da vida do
unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida
irm!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio
terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava
do mal causado aos outros!... Era to bom, que o mataram uns mal entendidos
remorsos!... E eu vivo ainda, minha irm!...

D'aqui a poucas horas, fechar-se-ho sobre mim as portas de um austero
convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero
repousar eternamente, quando Deus fr servido livrar-me do fardo da vida...

Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por
minha disposio, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.

Abraa a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae
evitar a vossos filhos, que de toda a alma abeno, o remorso de qualquer
falta, porque o remorso mata!...

Adeus!

                                                          Tua infeliz irm,

                                                                   _Anna_.


Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas
do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de
si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas
uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa,
disse para a familia:

--No esperavam, que a _velha_ fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza,
no dia da festa da minha neta?... Pois sabero, meus _crianas_, que tive
segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes
apresento todos pimpes, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez
presente... Perdo, senhor reitor... O nome de _criana_ foi uma
brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor
padre Alvaro...

O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas
suas as mos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabea sobre o
encsto do assento, erguera os olhos ao cu, e balbuciara estas palavras:

--_O remorso mata_... mas Deus perda aos que morrem penitentes...
Arthur... meus filhos... at logo!......

N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou  cabea do moribundo, o
que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.

Um despedaador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.

Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar:

      Vou chorar e cortar fno,
      quem trabalha tambem sente:
      as paixes trazem veneno
      encoberto na semente.

      O nosso reitor, um santo,
      reza sempre, e tambem chora!
      N'um sepulchro verte o pranto
      sempre, sempre  mesma hora!...

      Ninguem foge ao sentimento,
      ninguem foge ao seu destino...
      Quem d'amor soffre o tormento,
      no Cu tem Amor Divino.


    [19]  motivo de odios para os liberales de m casta, o sustentar
    hoje a conveniencia da vida claustral!

    Por verdadeiro affecto  liberdade, por sabermos seguir e presar o
    progresso do bem,  que entendemos absurda e tyrannica a extinco
    dos conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do
    nosso conto, era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade
     essa que tolhe as mais innocentes aces da criatura? Existiam
    abusos? E onde deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o
    castigo dos poderes constituidos? Porque no parlamento se discutem
    questes impertinentes, porque no sanctuario das leis havemos
    presenceado scenas vergonhosas, j alguem se lembrou de extinguir a
    camara popular?

    Consola-nos vr sustentar a nossa opinio abalisados e insuspeitos
    escriptores liberaes de toda a Europa.

    Dizemos desassombradamente o que sentimos: no sabemos comprehender
    o _celibato forado_ e somos desaffectos  _extinco das ordens
    religiosas_ e a todas as medidas violentas oppostas  bem entendida
    Liberdade.


FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA





Ao snr. Jos Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da gravura
em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.

Orgulha-me a fineza de um artista, que no _Reglamento de exposiciones
nacionales de bellas artes_, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim
classificado: Molarinho (D. Jos Arnaldo Nogueira), natural de Guimares,
discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de
Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y
1863. Que no mesmo anno de 1871, na exposio de concurso das bellas artes
em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro
inequivocas demonstraes do grande apreo em que por l  tido o seu
talento, e que mais util ainda teria sido  patria, se os poderes publicos
d'este nosso Portugal no tivessem o infeliz sstro de ignorarem a morada
do verdadeiro merito.

Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda no houve um _cantinho_
na casa da moeda! Se elle no  influente eleitoral!...

De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o
seu genio em obrinhas que lhe dem o po de todos os dias!

Queriam que o snr. Molarinho concorresse  exposio de Vienna
d'Austria?[20]

Os seis mezes que s. s.^a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome
europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar _colleiras para
adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o
notavel artista_, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador.

Perdo... No faamos injustias. Nem todos os ministerios se esqueceram do
snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de
parochia... O snr. Molarinho  cavalleiro do habito de Christo: no morre
de fome.

Porto, 27 de agosto de 1873.

                                                _Miguel J. T. Mascarenhas_.


    [20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna
    d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da
    exposio: no lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que l
    mandou, foram premiados.






End of the Project Gutenberg EBook of Um conto portuguez: episodio da guerra
civil: a Maria da Fonte, by Miguel J. T. Mascarenhas

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